Contos, crônicas e cartas

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quarta-feira, 2 de março de 2011

* A Vera Antoun

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Porto Alegre, 21 de março de 1972.

Verinha querida; escrevi para você e Henrique há muito tempo, em dezembro. Não recebi nenhuma resposta, fiquei grilado com o silêncio, achando que vocês não me queriam mais ou, na melhor das hipóteses que o correio havia extraviado a minha carta. De qualquer jeito, era uma carta muito besta, falsa e descolorida — eu estava atravessando uma fase muito ruim, me sentia exilado aqui em Porto Alegre, vazio, sem nada pra dizer, a não ser que gostava imensamente de vocês dois e não queria perdê-los. Talvez fosse um pedido de socorro envergonhado. O socorro não veio, nem de vocês nem de ninguém, e fui obrigado a me investigar e afundar em mim mesmo durante todo esse tempo, no começo assim como quem cava um poço no deserto, depois, aos poucos, sentindo a areia mais úmida, uns filetes d’água brotando lentamente, até agora, quando me sinto na iminência de mergulhar o corpo nesse lago (talvez mar)-eu-os outros cosmos, não sei.

Eu ia te escrever qualquer dia, eu tinha - e tenho - um monte de coisas pra te dizer, aquelas coisas que a gente cala quando está perto porque acha que as vibrações do corpo bastam, ou por medo, não sei. Mas as coisas todas, externointerno, eram muito difíceis e escuras, eu não tinha condições de mostrar ou dar nada a ninguém que não fosse também escuro, compreende? Eu não queria, eu não quero dar trevas, dor, medo, solidão - eu quero dar e ser luz, calor, amparo (naquela cerimônia do chá em Sta. Teresa eu disse que queria ser ombro, você disse que queria ser um ovo — será que um ovo pode se apoiar num ombro sem quebrar?). A noite passada sonhei com você, e acordei hoje todo cheio de Verinha, você sentada comigo na frente do Conservatório, você na praia, você de branco, você sorrindo e apertando os olhos, você de tantos jeitos que eu não tinha outra solução senão sentar e escrever, embora com medo de não poder, de não saber, quando a gente segura um vidro a gente tem medo de quebrá-lo. Sobre o sonho não falo, talvez você achasse ridículo, mas era bonito.

Passei coisas difíceis. Fui demitido da Bloch e estive preso por porte de drogas. Depois disso, voltei para cá e, durante algum tempo, mergulhei numa série de viagens lisérgicas, de onde saí mais confuso do que nunca. Perdi minha identidade, me desconheci. Passei um mês inteiro trancado no quarto, sentindo dor. Não exatamente sentindo, mas sendo dor, sem falar com ninguém, sem pensar nada, sem fazer nada. Passei janeiro na praia, com meus pais e meus irmãos, e em fevereiro fomos pra Itaqui, uma cidadezinha na fronteira com a Argentinas onde moram meus avós e tios. Acho que foi um pouco o ter voltado a encontrar a paisagem da minha infância que me fez reencontrar também comigo mesmo, voltar a abrir os olhos e não fugir mais. Toda aquela terra, as cadeiras na calçada e as pessoas olhando o céu, sabendo da natureza, as ruazinhas estreitas, as casas velhas, a ausência de televisão, de automóveis, de civilização — tudo isso faz parte do mais fundo de mim, onde comecei, onde estou plantado. A vontade compulsiva de me atordoar cedeu lugar à vontade de ser simples, ser terra (como Jorge de Lima: “Nunca fui senão uma coisa híbrida/ metade céu, metade terra com a luz de Mira- Celi dentro dos olhos”) e quando voltamos para Porto Alegre, eu já estava em pleno processo de regeneração.

Estou fazendo análise, ontem tive a primeira sessão. Não é análise tradicional: o paciente esticado no divã e o analista remexendo a cuca com seu bisturi-freudiano-kleiniano-enferrujado. O método de um alemão Schultz (o papa germânico da psicanálise), fundamentado na auto-hipnose, concentração, relaxamento, meditação, auto-análise - baseado nas filosofias orientais, ioga, zenbudismo, tao. O paciente aprende a dominar seu corpo e sua mente e, no último estágio, alcança uma grande paz ou conhecimento (espécie de nirvana ou satori), encontra dentro de si reservas de criatividade e pode orientar-se para qualquer objetivo, auto-estimulando-se. Os exercícios de concentração, como a ioga, podem levar a ter visões de cores, paisagens paradisíacas, essas coisas. E tudo isso acaba com a ansiedade, a angústia, a insegurança. Vai ser bom e vou conseguir.

Depois das viagens, estive quase paranóico. Vi monstros horrendos nas pessoas, me senti perseguido e encurralado, aí me tranquei em casa e, cada vez que saía, era um suplício — voltavam as ondas do sunshine e eu achava que as pessoas iam me morder, rir de mim, um inferno. Quando melhorei um pouco, tentei sair e procurar alguns amigos, mas não consegui nenhuma integração com eles. Fiquei surpreendido com o grau de vampirização das pessoas: todas elas preocupadíssimas em falar, falar, falar, extrair opiniões, orientações, dicas, dizer coisas inteligentinhas, mostrarem que não são caretas, que não têm medo, que não sentem dor. Cada contato meu com alguma pessoa representava uma perda enorme de energia vital: eu saía esgotado, confuso, com dor de cabeça e, principalmente, com dor por não poder fazer nada pelo desespero alheio. A minha própria miséria aumentava. Foi aí que a solidão deixou de ser involuntária para se transformar em escolha. E foi bom, está sendo bom. Passo o dia lendo, ouvindo música, vendo velhos filmes na televisão, de vez em quando vou ao cinema ou saio para passear na beira do rio que passa atrás do edifício. Fico lá sentado numa pedra, fumando e pensando nas pessoas que perdi, senão em afeto, pelo menos em proximidade física. De vez em quando choro, é bom chorar, eu não tenho vergonha, mas em todos os momentos existe a certeza de ter feito uma escolha acertada, de estar caminhando em direção à luz. Não nego nada do que fiz, também não tenho arrependimentos ou mágoas: eu não poderia ter agido de outra maneira — mesmo em relação a você — levando em conta o quanto eu estava confuso naquela época. Também já não tenho aquelas queixas infantis, na base do “tudo dá errado pra mim”, ou autopunições como “eu sou uma besta, faço tudo errado”. Nada é errado, quando o erro faz parte de uma procura ou de um processo de conhecimento. Gosto de olhar as pedras e os desenhos do vento na superficie da água, gosto de sentir as modificações da luz quando o sol está desaparecendo do outro lado do rio, gosto de sentir o dia se transformando em noite e em dia outra vez, gosto de olhar as crianças brincando no corredor de entrada e das palmeiras que existem no meio da minha rua - gosto de pensar que vou sempre ter olhos para gostar dessas coisas, e por mais sozinho ou triste que eu esteja vou ter sempre esse olhar sobre as coisas. Não sei muito, também não tenho muito, também não quero muito, mas estou aprendendo a respirar o ar das montanhas.

Verinha, eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas - se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha - e tenho - pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim.

Queria saber de você e de Henrique, daqueles meninos que sem me conhecerem me levaram para a sua casa e se mostraram para mim. Vocês foram as melhores pessoas que encontrei no Rio, sabem disso? Por favor, me escrevam, é importante, um bilhete, um postal, qualquer coisa, de preferência uma carta gorda como uma cantora lírica, contando de tudo que vocês estão sendo e fazendo nessa cidade louca, linda e longe. Eu tô aqui, lendo Charles Reich e zen-budismo, sentindo saudade de vocês. Os taurinos e virginianos não devem se perder, Verinha. Um grande beijo e saudade do

...............................................................................................................Caio



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4 comentários:

Eliete disse...

Suzi, que carta triste e linda. Mostra um ser humano falando abertamente da dor e do amor que sente . Quanta humanidade.bjs

Juuh Nascimento disse...

Nossa que carta linda.
Como Caio era sensível, ainda me sensibilizo toda vez que leio suas palavras. Como essa alma é espacial!

Minha querida obrigada pelos parabéns, és uma querida, e apesar de nos conhecermos apenas virtualmente, é grande o meu carinho por vc!

Tenha um lindo fim de semana, e caso curta,
um ótimo carnaval!

Bjs & abraços!

Mayara Azalscky disse...

os textos do Caio F. são sempre inspiradores! adoro
você mesma escreve?
parabéns pelo blog, seguindo. Se puder retribuir, agradeço mto!
http://sentimentosgratuitos.blogspot.com/
bom carnaval!

VEREDAS, por Marluce disse...

Suzi,

QUE-RI-DA amiga, quis postar no teu outro blog e não consegui! Que pena! rs


Uma carta é sempre um falar da alma, e isso ele transbordava!

Nunca esqueça que gosto muito de vir aqui ver e emocionar-me com teus posts!


Um abraço E-NOR-ME, Marluce