Contos, crônicas e cartas

Blog ativado em: 16/maio/2010

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

* Verbo transitivo direto

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Que era uma mulher e amava essas as considerações de nível geral repetidas todas as manhãs, antes de descer às minúcias cotidianas. Depois vinham os problemas. As perguntas. Que era uma mulher não havia dúvida, embora o ser despenteado e vagamente sujo recém-desperto a olhasse um tanto assexuado do fundo do espelho. Concretizada a primeira afirmação (ou fato, como diria mais tarde aos alunos do segundo ano primário) - concretizada a primeira afirmação, como ia dizendo, ela afirmava-se e cumpria-se em mulher, passando em seguida à segunda. Que amava. Liberta do entorpecimento do sono que a perseguia até então, encarava-se antipatizada consigo mesma. Que amava? Pedra no caminho, a interrogação a fazia tropeçar um pouco despeitada. Não com a pedra nem com o tropeção, que pedras sempre havia e tropeções eram fatais, mas com não poder passar adiante, sacudindo a poeira do vestido e acariciando prováveis arranhões. Lavava o rosto, fazendo-se mais e mais inteligente à medida que se despia dos acessórios do sono. Resíduos nos olhos, fios de cabelo fora do lugar, gosto ruim na boca – com sabonete, água, pasta e escova de dentes ela os eliminava um a um. E em sagacidade, crescia. Cabelos erguidos num coque, quase gênio, voltava à afirmação. Que amava. Pois afirmara e não apenas, modesta, indagara. Passava a outras operações. Matinais, femininas. No corpo, aquela quase idiota sensação de sujeira que o sono deixava. Sentia-se imoral ao acordar. Incestuosa. Principalmente quando sonhava consigo mesma. Ah houvesse um jeito de dormir completamente só, sem a companhia sequer de si mesma. Não havia. Incestuosamente, então, deitava-se às dez da noite para acordar às seis da manhã. Oito horas exatinhas. Às vezes detinha-se e pensava: antilunar o meu sistema. Quando deitava, a lua ainda não tinha vindo; quando acordava, já fora embora. Carregava pesada e magoada uma lua vista apenas por dentro. Que amava a lua? Obsessiva, voltava à pedra. Talvez descobrindo que lhe entrara no sapato. Por que não jogá-la longe de vez? Que amava? Em resposta, mirava-se triunfante no espelho, boca pintada, cabelo penteado, seios empinados, e totalmente assumida em mulher. Vagamente desgostosa triunfo murchando na vistoria do corpo - aqui entre nós, dizia-se, quase indecente na intimidade consigo mesma aqui entre nós, um tanto passado. Franzia as sobrancelhas, disfarçava a raiva espiando pela janela.

O sol ainda não viera. E sem lua nem sol ela estava sozinha no banheiro. Esta revelação a fez baquear um pouco. Meio tonta com a solidão e a brancura do momento. Trôpega, buscou apoio na extremidade da pia, que respondeu fria e asséptica ao pedido de ajuda. Olhou para a porta, e se então tivesse saído teria escapado. Mas ficou. Ferindo a si mesma e por si mesma sendo ferida. Com o pretexto de lavar as mãos, molhou os pulsos, sem admitir a tontura – que às vezes tinha esses pudores íntimos.

Recuperada, voltou à pergunta. Que amava? Com fricotes de namorada, fingia não querer responder, não querer saber - que amava? Didática, explicou-se: amar, verbo transitivo direto: quem ama, ama alguma coisa. Ou alguém, completou. Analisou-se, voltando à afirmação do início - que era uma mulher e amava: 1) Que era uma mulher; 2) Que amava: a) alguma coisa ou b) alguém. O pronome indefinido colocou-lhe um arrepio definido e melancólico na espinha. Teve que substitui-lo por outro: ninguém. Havia, certo, vagos e avermelhados professores do colégio onde lecionava. Havia vizinhos? e homens? E vizinhos e homens, havia. E principalmente um namorado de adolescência a quem, preguiçosa, esquecera de amar - possibilidade de algum sofrimento relegada em fotografia à última gaveta da escrivaninha. E contudo, amava. Leviana, objetiva, espalhava seu amor sobre os móveis polidos com cuidado, o assoalho encerado, as cortinas lavadas, que sua casa era um brinco. A imagem lembrou-lhe as argolas de ouro há tempos esquecidas. Vou botar hoje, decidiu.

E encarou-se. Implícito no olhar, o pedido de desculpas por permitir-se àquela extravagância. Pedido de desculpas logo transformado em olhar de revolta. Afinal, não tenho o direito de usar o que é meu? Teatral: e por que raios não saio logo deste maldito banheiro? Acrescentou o adjetivo para ver se sentia um pouco de raiva. Mas o banheiro, branco, limpo, com azulejos, sais e sabonetes enfileirados nas prateleiras - o banheiro não era nada odiável. Com seu ódio recusado pesando por dentro, interrogou-se: que-que eu tenho hoje. A pergunta soou sem ponto de interrogação. Respirou fundo e repetiu em voz alta: que-que eu tenho hoje?

Então viu. Antes que tivesse tempo de terminar a pergunta, ela viu. Tentou disfarçar lembrando que seu nome -Irene - era de origem grega e significava "Mensageira da Paz", vira no Almanaque Mundial de Seleções na noite anterior, antes de dormir. Lindo lindo lindo - adjetivou três vezes em lento pânico. Tão lento que não atinou com despir-se inteira do que até então vira para sair nua e cega do banheiro. O pensamento dava voltas devagar, ela julgou ouvir um canto de criança longe. Tão longe que poderia ser também uma canção de ninar. Boba, sorriu. Toda enleada na viscosidade dos pensamentos, exatamente como uma mosca se debatendo bêbada, deliciada e aflita, numa armadilha de mel. Mas os minutos passavam enquanto sua possibilidade de libertação diminuía cada vez mais. Alheia à própria perdição ela afundava, Irene, embevecida. E se não saísse agora, já, exatamente nesta nota deste canto naquele passarinho daquela árvore ali de fora, se não saísse agora estaria perdida. Imóvel, Irene não ouviu o apelo do pássaro. E sem ter outro remédio, relegada a si própria, Irene viu.

Redonda, amarela, tentadora - a espinha brilhava na ponta do nariz. Passado o primeiro espanto, o gesto foi de pudor. Como se sua face exibisse uma obscenidade, um outro órgão sexual ainda mais cabeludo e mais oculto. Como se a quieta presença da espinha violentasse alguma coisa no dia. Mas corrigiu esse primeiro gesto, e contemplou-a novamente. O segundo movimento foi de orgulho. Como nascera de si espinha tão perfeita? Examinou-se conscienciosa da cabeça aos pés, e quando tornou a erguer os olhos o maravilhamento foi ainda maior. Era realmente uma bela espinha. De uma beleza geométrica: exata na circunferência, discreta na cor, formando dois ângulos de quarenta e cinco graus com as aberturas do nariz. Irene lembrou-se de compará-las às outras espinhas de sua vida. Mas aquelas, além de poucas, tinham seu habitat natural em suas costas, lugar inacessível aos olhos. Logo também o deslumbramento desestruturou-se, rolando em indagações pelo rosto abaixo. Como? Quando? Por quê? Na noite anterior, ao lavar o rosto, não vira sequer anúncio da espinha. E hoje, minutos afio recompondo-se, ainda não percebera nada. E seu rosto sempre limpo, prevenindo acontecimentos dessa espécie. E sua idade madura, superando esses problemas adolescentes. Todas as perguntas tinham resposta. Mas a espinha continuava. Alheia às investigações, atenta apenas a seu próprio amadurecer. Teria crescido durante a noite? Seria apenas uma espinha? Seria um ferimento inflamado? Seria? Novamente Irene amaldiçoou as espinhas de outrora, nascidas sempre nas costas, e, portanto negando-lhe um eventual preparo para enfrentá-las.

Então, esgotadas as dúvidas, as hipóteses, as perguntas; esgotada sua própria resistência, ela caiu no círculo profundo que desde o início evitara. Dentro de si, olhou para trás e viu às suas costas os dias anteriores acumulados. Uma pilha inútil, discos fora de moda, revistas velhas, badulaques. E viu dias agrupando-se em semanas, em meses, em semestres, em anos, em décadas de cima daquela pirâmide quarenta anos a contemplavam. Tentou ver-lhes as faces, curvou-se um pouco, e mais, e mais ainda. Desnecessário esforço. As massas informes não possuíam feições. Não haviam passado por elas as coisas que geram rugas, vincos, sorrisos, expressões. Cheiros não haviam feito vibrar aquelas narinas. Sabores nos atingiam aqueles paladares, imagens passavam incógnitas pelos olhares fixos, sons desfaziam-se em choque e poeira contra ouvidos pétreos, contatos perdiam o sentido àqueles dedos frios. Quarenta monstrengos formados cada um de infinidades de outros a observavam, inertes. Tentou descobrir um vislumbre de ódio nas expressões. Nem isso. Sem solicitações ou expectativas, eles aguardavam. O que, deus, o quê? Pois se amava. Pois se distribuía seu amor por todas as coisas com que convivia. Pois se sofria. Pois se vezenquando chorava sem saber por quê.

Pois se não via a lua. Pois se tinha pena das crianças pobres na escola. Pois se encarara a espinha. Intensa na própria defesa acumulava atenuantes, justificando-se aflita. Contou desculpas nos dez dedos das mãos abertas em frente ao espelho. Não satisfeita, recorreu aos dos pés. Recorreria a outros, se mais tivesse. As desculpas se acumulavam me entende, eu não quis, eu não quero, eu sofro, eu tenho medo, me dá a tua mão, entende, por favor. Eu tenho medo, merda!

Devagarinho, deixou os ombros caírem. Com a mão, afastou da testa os cabelos molhados. O grito ressoara forte no banheiro, ecoando pelos azulejos para calar o pássaro lá fora. O pássaro que havia pouco fora sua possibilidade de salvação. Recusada. Sacudiu a cabeça, furiosamente afastando pensamentos. Que era uma mulher e amava, que era uma mulher e amava, queeraumamulhereamavaqueeraumamulhereamavaqueeraumamulhereamava foi repetindo e repetindo até libertar-se de tudo. Abriu os olhos, encarou-se. Feminina, amorosa, delicada, levou os dois indicadores até o nariz e suavemente espremeu a intrusa. Depois caminhou até a cozinha e servindo-se de chá na xícara rosada olhou com espanto o relógio. -Como é tarde, meu deus! Preciso me apressar! Apressou-se então, a boca cheia de pão com manteiga, ao mesmo tempo em que se imaginava na roda do cafezinho contando: -Imagina, Clotilde, hoje me aconteceu uma coisa tão engraçada!

Mas tão engraçada, repetiu em voz alta no meio da neblina, argolas douradas nas orelhas, a rua vazia. Saiu correndo para pegar o bonde. Sentada, acariciou medrosa a ponta do nariz.
Não ficara nenhum sinal.


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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

* Triângulo em cravo e flauta doce

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Ela disse que não tinha certeza de nada, que podia mesmo ser uma alucinação, um pesadelo, uma projeção subconsciente ou qualquer outra coisa assim. Enumerou suposições, os olhos preocupados evitando os meus, e disse também que preferia não contar, que sabia que eu ficaria preocupado e iria falar com ele, que talvez fosse agressivo e negasse tudo, ainda que o que ela havia visto e escutado fosse verdade. Acrescentou que apesar de tudo nada tinha a ver com a vida dele, nem com a minha, e falou ainda em voz baixa que talvez também não tivesse nada a ver com sua própria vida. Foi então que seus olhos se apertaram um pouco e por um momento pareceram cheios de lágrimas. Achei que fosse ilusão minha e não falei nada, até que ela começou a roer as unhas e afundou a cabeça na mesa.

Afastei o copo e a garrafa de vinho para tocar sua cabeça, mas interrompi o gesto em meio e fiquei com a mão suspensa sobre seus cabelos. Ela pareceu perceber, pois ergueu os olhos assustada, sem fazer nenhum outro movimento. Cheguei a pensar então em não insistir mais, disse para mim mesmo repetidas vezes que talvez fosse melhor para nós três que eu saísse imediatamente dali para não voltar nunca mais. Mas qualquer coisa me obrigava a permanecer. Esperei sem dizer nada até que ela recomeçasse a falar. Depois de algum tempo olhando as mãos, disse que meu irmão não dormia há várias semanas, passava a noite inteira fumando, levantando da cama para ir à cozinha, ao banheiro, ou então à sala, onde colocava sempre aquela mesma música medieval em cravo e flauta doce, enquanto escrevia até de madrugada. Ela não chegou a dizer mas percebi que não suportava mais aquela melodia nem aqueles cigarros nem o barulho da máquina nem aquele escuro roendo o corpo e a mente dele. Andava magro, disse, nervoso, tinha olheiras fundas, às vezes ficava muito pálido e apoiava-se no primeiro objeto à vista como se fosse cair. Fiquei ouvindo, mas soube que não era só isso. E não insisti, apenas continuei olhando para ela enquanto falava. Então ela disse devagar que estava grávida, e que contara a ele. Passou sem sentir os dedos de unhas roídas sobre o ventre ainda raso, depois disse que ele jurara matá-la se não tirasse a criança. Perguntei se essa seria a causa do desespero dele, daquela música, das noites em branco, dos cigarros, das tonturas. Evitando me encarar, ela disse apressada que não, mas pouco depois tocou no copo cheio de vinho e disse que sim, pelo menos, acrescentou, pelo menos antes de saber aquilo ele andava mais calmo. Ficou calada de repente para depois dizer com esforço que sim, que tinha certeza que sim, que compreendia que fosse dessa maneira, que ela própria às vezes se horrorizava e pensava no ponto a que tinha chegado. O ponto terrível, ela repetiu, terrível.

Ela falou muitas coisas, e fiquei lembrando das suas tranças, antigamente, das suas meias sempre escorregando pelas pernas finas, da mania de subir nas árvores mais altas e ficar lá em cima até que alguém a obrigasse a descer para jantar ou tomar banho. Tinha sempre os cabelos finos caídos sobre os olhos numa franja rala, um ar obstinado de animal selvagem, as unhas roídas até a carne. E os olhos devorados por qualquer coisa incompreensível. Despertei com o toque de seus dedos no meu pulso, dizendo que não suportava mais. Perguntei se queria que eu falasse com ele, mas pareceu não ouvir. Disse que não suportava olhar para os braços dele e ver as manchas roxas endurecidas sobre as veias e saber da droga escorrendo por dentro, pelo sangue, enormizando as pupilas, desnudando os ossos, empalidecendo a pele.

Perguntei lento se tinha certeza, ela disse que sim, encontrava sempre seringas e ampolas e pedaços de borracha jogados pela casa, e tinha medo, perto dele tudo parecia fazer parte de um pesadelo, ela disse.

Ficou repetindo tudo isso enquanto eu pensava nele, brincando sozinho, voltado sempre para o sombrio, seus livros no porão, sua criação de aranhas, os mesmos cabelos finos dela, o mesmo ar obstinado, as suas vozes roucas, o seu medo. De repente ela disse que talvez fosse melhor eu não falar nada, ele achava que ninguém sabia, talvez se voltasse contra ela, tinha medo. Tentei acalmá-la dizendo que não era tão terrível assim, e fui repetindo como se fosse coisa decorada que: nas-pequenas-aldeias-gregas-isso-era-comum-e-que-em-alguns- países-da-Europa e-mesmono-interior-do-Brasil-era-prática-normal-não-era- assim-tão-assustador. Sentindo-me vagamente ridículo, e também um tanto cruel, repeti que: vivíamos- um-tempo de-confusão-e-que-todas-as-normasvigentes-estavam-caindo-que-aos-poucos-também-todas as-pessoas-aceitariamtodas-as-coisas-e-que-tal- vez-nós-fôssemos-alguns-dos-precursores dessa-aceitação. Falei dessas coisas até cansar, enumerei nomes, contei lendas, lembrei mitos, mas não consegui evitar seu olhar de fera provocando tremores e abismo no fundo de minha voz. Ficamos durante muito tempo olhando o copo de vinho cheio e a garrafa vazia. Até que senti uma presença às minhas costas. Voltei-me devagar, procurando não encará-lo, mas ao subir o olhar pelo seu corpo percebi as manchas nas veias ressaltadas pela magreza dos braços. Suas mãos tremiam segurando um cigarro. Abraçou-me com um carinho desesperado, acariciou-me os cabelos e as faces chamando-me lentamente de mano, meu mano, perguntou por que eu ficava tanto tempo sem aparecer, disse que eu precisava ler seus últimos poemas, olhou para ela e disse que ela estava espantada de como ele estava finalmente conseguindo uma linguagem própria, e disse ainda que eu precisava mesmo ler, e empurrou-me suave para a sala repetindo que eu precisava escutar alguns trechos dos poemas novos ao som de uma melodia medieval que descobrira há pouco tempo.

Sentei na poltrona e esperei de olhos fechados. Depois fiquei sentindo a sua mão sobre a minha e ouvindo a sua voz rouca lendo coisas estranhas, mágicas e tristes ao som de um cravo e uma flauta doce. Sem sentir fui sendo penetrado por um reino de escuridão, teias, náusea, dor, maldição e luz. Quis voltar, mas era muito tarde. A música crescia numa lentidão exasperante e a sua voz repetia enlouquecida coisas doces, difíceis, doentes. Pensei absurdamente numa tia antiga fazendo doce de abóbora com cal num tacho preto, nós três em volta, e num esforço enorme consegui abrir os olhos. E enquanto a boca dele se aproximava da minha, muito aberta, vi nossa irmã atravessar o corredor de luzes apagadas, os olhos baixos, os dedos da mão esquerda pousados de leve sobre o ventre onde cresce meu filho.


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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

* A Sérgio Keuchgerian

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Na cidade alagada
27 de janeiro de 1987
16h 20m

Sérgio, querido,

saudade & saudade & saudade. Fico à espera do teu mapa, que não me chega, então me adianto e te escrevo. Esperava o mapa também para descobrir o dia do teu aniversário. Não lembro. Já foi? está sendo? vai ser?

Cinza & relâmpagos outside. Paisagem dramática. Edifícios recortados contra o céu cortado de relâmpagos. Eparrê-yê, Iansã! Caos, catástrofe. Chegar ontem no jornal foi igualzinho a um comercial de Camel. Até curti.

Sinto uma falta absurda de você. Ficou um vazio que ninguém (pre)enche. E penso e repenso e trepenso em você por aí. Deve ser tão árido. Horizontes infinitos? Mas fique tão tranqüilo — e humilde, e confiante — quanto possível. É só uma fase, só um estágio. Vai passar. Lembro dos meses que passei em Estocolmo, numa cidade universitária — Kungshambra — onde só havia suecos, dinamarqueses, finlandeses, noruegueses. Teve uma noite de lua cheia — e era midsummer, pleno verão, não havia noite, só duas horas de penumbra crepuscular — que saí a caminhar em busca de alguém para conversar. Dizer ôi (ou hei, em sueco), ou Inte präte svenska (“não falo sueco”) que fosse. E nada, não encontrei ninguém. Caí (pode?) no meio do asfalto chorando. Arranhei as unhas no asfalto de pura solidão. E aquela lua cheia enorme lá em cima, e os bosques atrás, com o castelo de verão do rei — tudo parecia sinistro. Parecia que eu ficaria para sempre lá, ao lado do Pólo Norte, e que isso não tinha menor sentido.

Mas passou. Hoje te conto. E lembro daquela história zen, o rei que pediu ao monge um talismã que o protegesse de qualquer mal. O monge deu ao rei um anel, com a recomendação de abri-lo só em caso de extremo perigo. Um dia, o castelo foi cercado pelos inimigos, e o rei encurralado numa torre. Ele abriu o anel. Dentro, havia um papelzinho dobrado. Ele abriu o papeizinho e leu uma frase assim: “Isto também passará”.

Tenho sofrido um pouco. R. veio de Porto Alegre, no sábado. Tivemos um dia lindo — com direito a sauna Nikkei e massagem (Akira sapateou em cima de mim, me virou para a esquerda e para o avesso). Jantamos num japa, saímos duas xuxas para ver Drácula. E então, em casa, ele me rejeitou mais uma vez. Me adora, morre de carinho & respeito & admiração. Mas: SEXO NÃO. Eu fiquei chorando no escuro, enquanto ele decidia dormir na sala.

Eu fiquei olhando aquelas estrelinhas no céu do quarto, sem entender nada. Tive vontade de ir de mansinho até a cozinha e abrir o gás. Talvez matá-lo também? Tive vontade de pegar uma faca na cozinha e enfiar no coração dele, depois no meu. Tive vontades Maria Bethânia, vontades Maysa, vontades Fassbinder — teatrais, melodramáticas. Me limitei a escovar os dentes, me masturbar pensando nele, e dormir. No dia seguinte, joguei um I Ching, e perguntei o que fazer. Saiu o abismal, Agua sobre Água: a imagem de um abismo. Como no fundo do abismo, a água escorre, você deve escorrer sem parar, para a frente. Mantenha a sinceridade no fundo de seu coração. Mantive. Tenho mantido. Nos dois últimos dias me baixou o irresistível & simpático Tio Caio. Aquele serviçal, paciente, tolerante — que compra flores e frutas, lava a louça, quebra galhos. Você sabe.

Faço o papel sem dificuldade. A água flui, vai para a frente. Isto também vai passar. Mas não compreendo. Então um lado meu pensa: é sina, é fado, é destino, é maldição. Outro lado pensa: não, é mera neurose, de alguma forma sutil devo construir elaboradamente essa rejeição. Crio a situação, e ouço um não. Desta vez, eu tinha tanta certeza. E penso: os deuses me traíram, os búzios me atraiçoaram, as cartas me mentiram. E me sinto velho e cansado, e tiro toda a roupa preta guardada nos armários — e tudo não deixa de ser teatral, meio engraçado. Mas há também uma dorzinha verdadeira no fundo. A pequena gota de sangue, como um rubi. E me baixa o peso do tempo, e dos meus 38 anos, e dos cabelos caindo, e de tudo indo embora e fugindo e se perdendo — e o amor sem acontecer, quando estou assim todo maduro, e limpo, e pronto, e luminoso como uma maçã no galho, pronta para ser colhida. Ninguém estende a mão para a maçã, pouco antes de começar o processo de apodrecimento.

Você conhece essas queixas, e eu não peço nenhuma palavra de consolo sobre elas. Tá tudo bem assim. Só que me rouba o sentido — entende? — ou a ilusão de sentido que quero ter da vida, e que é essencial para a minha sobrevivência. Não faz sentido ouvir esse não. Ou eu não estou vendo — agora — esse sentido? Pode ser. Mas eu tinha/tenho tanta sede dele. Me sinto o camelo do poema de Cecilia Meireles, mastigando sua imensa solidão.

E penso: sou feio, então, sou desagradável, é isso, é isso — é só isso, sou incapaz de inspirar qualquer erotismo em alguém. Fico me ferindo, mas também dou voltas e penso: não, não é nada disso, sou legal, sou mansinho, sou até bonitinho. E penso tantas e tantas outras coisas, mas o real não se modifica. E o real, parece meio grosso dito assim, mas no fundo é isso mesmo — o real é: R. não quer trepar comigo de jeito nenhum.

Como dói.

Mas tenho anotado histórias, anotado sem parar. Está vindo algo por aí, está se avolumando. Talvez seja o único jeito, não? Minhas ficções não me rejeitam. Talvez seja sina, essa de escrever, e então ter as respostas da vida real na vida recriada, nunca na própria vida real — como as pessoas que não criam costumam ter. E deve estar certo assim, deve haver uma ordem e um sentido nisso.

Terminei As brumas. Tive um impulso quase incontrolável de ligar pra você às três da manhã. Mas tua mãe me disse que o telefone é na portaria, precisam te chamar no quarto. E eu achei que ia ser muita barbarização, fiquei quieto. Mas não encontrei ninguém para falar sobre. Fiquei impressionado, fiquei machucado com a decadência, a loucura, a solidão do final. E tenho medo de ter a sina de solidão de Morgana. E lindo demais, e terrível. Fico filmando na minha cabeça. Isabelle Adjani como Morgana, Christopher Lambert como Arthur, Kim Basinger como Guinevere — não encontro Lancelot, mas podia ser Richard Gere? Muito pêra, talvez Sean Penn, com os cabelos tingidos de preto? E Harrison Ford teria que ter um papel. Penso em Irene Papas como Viviane (ou Raven). Te parece bom? Claro que seria caríssimo. E muito chique, ‘magináh!

Quando você vem? Quando te vejo? Quando jantamos juntos em qualquer lugar? Manda teu mapa logo, te mando um cademinho de trânsitos. R. descobriu que a hora de nascimento dele estava errada: portanto ele é Libra, ascendente em Touro, Lua em Touro, Vênus em Virgem. A combinação perfeita para mim, que tenho Sol em Virgem, ascendente Libra, Lua em Capricómio e o nó lunar em Touro. Touro é a minha casa VII e VIII, a do casamento, e da sexualidade. E por tudo isso, entendo ainda menos.

Pense em mim, me mande mentalmente coisas boas. Estou tendo uns dias dificeis — mas nada, nada de grave. Penso em você com carinho, com amor, com saudade. Me deram trabalho. Tenho que parar.

Te amo muito. Beijo,

Love
Love
Love

...............................................................................Caio F.


PS 1 — Maurício vai amanhã — mando por ele. É ótima pessoa: curtam-se.

PS 2 — Falei com sua mãe, Ela mandou dizer que está morrendo de saudade — e só não liga todo dia pra não ficar ainda mais saudosa.

PS 3— Não se preocupe comigo. Ontem, eu tava meio amargo. Tá tudo bem! Afinal, o que é SEXO?

Beijos
Beijos
Beijos
Beijos
Beijos


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domingo, 12 de dezembro de 2010

* Ruy Krebs

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Recebo com pesar a nota de falecimento do Ruy Krebs:



Nota de falecimento: CEFID perde o professor Ruy Jornada Krebs

Morreu às 5 horas deste sábado, 11 de dezembro, o professor Ruy Jornada Krebs, do Departamento de Educação Física do CEFID/UDESC. Natural de Santiago (RS), o professor Krebs tinha 62 anos e estava internado há cerca de 30 dias num hospital em Santa Cruz do Sul (RS), com complicações no fígado.

Ruy Krebs atuava como professor titular no CEFID desde 1998. Coordenava o projeto de extensão de Capacitação dos Professores da Rede Pública e Privada de Ensino para a Avaliação do Desenvolvimento Motor em Escolas, que já estava selecionado entre as ações do centro para 2011. Era doutor em Educação Física pela University of New Mexico, em Albuquerque (EUA), com pós-doutorado na Indiana University, em Bloomington (EUA).

A família informou que o corpo do professor seria transferido ainda na manhã deste sábado para Porto Alegre, onde será cremado. A previsão é d e que chegasse ao local do velório, o Cremátório Metropolitano São José, em Porto Alegre, por volta das 11 horas. A cremação está prevista para as 16 horas deste sábado.

A Direção Geral do CEFID, em nome da comunidade universitária, manifesta seus pêsames à família pela perda irreparável.


Weimar Donini

12 de dezembro de 2010 05:49






Ruy Krebs

Ruy e Caio foram amigos desde a infância em Santiago,
estudaram no Colégio Estadual Cistovão Pereira.
Moraram juntos em Porto Alegre, quando finalizaram os estudos no ensino médio.
Ruy estava com Caio quando ele recebeu a carta de Carmem Silva,
dizendo a ele que o conto "o príncipe sapo" seria publicado na revista Cláudia.

A AMIZADE SEMPRE RESISTIU A TODAS AS DISTÂNCIAS.


(Retirado do livro dedicado ao Caio no Projeto
"Santiago do Boqueirão, seus poetas quem são?")


Volto a postar a carta do Caio escrita à Ruy Krebs

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..................................... São Paulo, 05 de junho de 1985.


Ruy, muito querido,

Você ainda está aí? Não recebi mais nenhuma linha - bom, mas também não escrevi mais-nem-uma-linha. Portanto, reticências ... Mas estou te escrevendo agora, cair da noite de uma sexta-feira quente, de lua ainda cheia, ouvindo Louis Armstrong, tomando chimarrão, porque abri de repente um caderno e me caiu de dentro essa página da Veja, que havia recortado para você - veja só - em Presidente Prudente, mais de um mês atrás.

Difícil ser sintético para dar um panorama daqui. O país está patético, desde a morte não totalmente esclarecida - (há boatos até hoje sobre uma injeção de bactérias e baixarias quetais, bem republiqueta, bem sul-americanas) - Tancredo Neves. Os psico-sociólogos dizem que foi o momento em que o povo finalmente percebeu que Deus não é, nunca foi e nunca será brasileiro. A melancolia é total. Além da inflação há uma paranóia solta no ar: AIDS. Impossível dizer até que ponto tornou-se mais um prato de resistência da imprensa sem novidade, mas de qualquer forma a doença existe e instaurou um novo comportamento entre as pessoas. Que mal se tocam.
Tenho me sentido bastante mal com isso. Para quem, como eu, por alguma deficiência emocional, ou ao contrário, por extrema saúde, nunca fui capaz de conquistar isso que chamam de "pareceiro fixo" - a consequência da paranóia é uma extrema solidão. Como se nunca mais o amor fosse bater na sua porta. A noite está vazia, ninguém se procura mais, ninguém se encontra. Vou me virando com minha tendência à depressão cada vez mais forte, e agora especialmente agravada por isso.

Profissionalmente as coisas estão bem, continuo na Around, na IstoÉ, comecei a colaborar com o Jornal da Tarde e a gravar, uma vez por semana, resenhas e livros para um programa da TV Cultura.

Estou também mergulhando de cabeça num livro novo - e isso é o que melhor posso te contar de mim. A Brasiliense me fez uma boa proposta: pagar um salário durante quatro meses, para que eu pudesse trabalhar menos e me dedicar a esse romance encruado que tenho na cabeça há três anos. Bom, está saindo. Por enquanto chama-se Desesperadamente, ou Onde Andará Dulce Veiga? Avança lentissimamente, é talvez a coisa mais lenta que já escrevi em toda minha vida. Estou tentando uma técnica nova, que chamo de caleidoscópio verbal: são figuras que se formam, à medida que o texto vai avançando, e da qual se destacam um ou dois elementos que formam uma figura nova, e assim por diante. A fragmentação, portanto, é apenas aparente, porque a intenção é conseguir um fluxo ininterrupto. Loucuras que me servem para a extruturação interior da coisa. Talvez o possível leitor mal perceba. Mas o livro é o que está me mobilizando no momento. E só isso. Andei amargo, andei achando inútil escrever, andei travado por mil coisas de dentro e de fora. Mas é o que sei fazer. A vida perderia um pouco de sentido que ainda tem se um dia eu desistisse. Então não desisto de encher laudas e laudas de palavras contando histórias que nunca aconteceram, embora consciente da inutilidade disso.

Deve ser o tempo, a proximidade dos quarenta anos (que meeeeedo), as nossas células e neurônios fatigados, mas vai baixando a humildade tão grande. Reduzi tanto os meus sonhos, minhas fantasias, minhas esperanças. Ando espantado com O Tempo. O tempo é a única coisa terrível que existe. O Tempo que passa e leva de arrasto, aparentemente aleatório, a juventude nosa e dos outros. Não é amargo, é apenas real. Só hoje começo a compreender certa expressão de espanto inconsolável que muitas vezes percebi nos olhos de meu pai. Meus olhos estão ganhando pouco a pouco uma expressão semelhante.

Então, tenho ouvido Armstrong, Billie Holliday, Bessie Smith, Theloniius Monk, Dinah Washington, os gemidos dos blues.

Quase sete e meia, devo sair daqui a pouco - vou me forçar a sair de casa para assistir ao Estagium com Fernanda, que é linda e também dança. Como hoje é sexta, e só vou poder colocar essa carta no correio na segunda vou deixar em aberto para acrescentar mais. Ah: comprei a poesia completa de Cecília Meirelles e vou procurar alguma coisa para interromper aqui.

Antes tenho pensado em ti nos meus escritos. Outro dia foi um conto chamado Beatriz que o destino desfolhou, escrito para uma antologia sobre a adolescência organizada pela Fanny Ambromovich. Remoí meses, uma história sobre Tânia Pinto, lembras dela? - aquela garota que foi minha namorada e morreu de leucemia, aos 15 anos. Também se passa em Passo da Guanxuma e que é uma Santiago do Boqueirão ficcionalizada. Em Dulce Veiga tem muito Passo da Guanxuma, acho que você vai reconhecer coisas i rir, sentir saudades talvez.

Bom, lá vai Cecília, deixa eu procurar. Que tal este de 1959?

"Esgueiro-me por entre a pedra e a nuvem:
belas cidades, deixai-me passar.
Ai dos meus encontros!

Por esses encontros, esgueiro-me, fujo
por entre palavras, por entre pessoas.
Ai dos meus encontros!

Que encontros são esses? Com quem? e quando?
Comigo. No sempre dos longes e pertos.
Ai dos meus encontros!
Deixai-me passar!


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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

* Anotações insensatas

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Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby.

Só que, como de hábito, na cabeça (como que separada do mundo, movida por interiores taquicardias, adrenalinas, metabolismos) se passava uma coisa, e naquele ponto em que isso cruzava com o de fora, esse lugar onde habitamos outros, começava a região do incompreensível: Lá, onde qualquer delicadeza premeditada poderia soar estúpida como um seco: não. E soou, em plena mesa posta.

Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, depois acendeu o cigarro, reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura.

Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha acabado de acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender, antes de doer abolerada, a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim.

Porque havia o sufocamento daquela espécie de patético simulacro de fantasia matrimonial provisória, a dificuldade de manter um clima feito linha esticada, segura para não arrebentar de súbito, precipitando o equilibrista no vazio mortal. Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome - e seria um erro, porque saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? - ou de pura preguiça de ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor, e de repente não tinha gosto?

De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Espera, vamos conversar, sugeriu sem muito empenho. Tarde demais, porta fechada. Sozinho enfim, podia remexer em discos e livros para decidir sem nenhuma preocupação de harmonia-com-o-gosto-alheio que sempre preferira um Morrison a Manuel Bandeira. Sid Vicious a Puccini. A mosca a Uma janela para o amor, sempre uma vodca a um copo de leite: metal drástico. Era desses caras de barba por fazer que sempre escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a maldição, a noite — a Fome maiúscula. Não a mesa posta e farta, com pratos e panelas a serem lavados na pia cheia de graxa — mas um hambúrguer qualquer para você que escrevo. Mas os escritores são muito cruéis, você me ama pelo que me mata com coca-cola no boteco da esquina, e a vida acontecendo em volta, escrota e nua.

Não muito confuso, assim confrontado com sua explícita incapacidade de lidar com. A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade de lidar com. Um instante antes de bater outra, colocar uma velha Billie Holiday e sentar na máquina para escrever, ainda pensou: gosto tanto de você, baby. Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo e não entende nada.


O Estado de S. Paulo, 22/4/987


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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

* Uma história confusa

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Era quinta-feira. Como nas últimas quintas, ele estava muito nervoso e trazia um envelope na mão. Jogou o envelope em cima da mesa, ficou andando pelo quarto.

— Outra carta? — perguntei.

Não respondeu. Só fez um movimento impaciente com os ombros, que podia significar muitas coisas. Mas não disse nada. Eu então abri e li as palavras datilografadas com cuidado:

Te vi por trás das rosas e havia nos teus olhos uma ânsia muda. Algo assim como se quisesses falar comigo. Juro que na saída tentei me aproximar Mas tive medo. Sei que ainda vamos ser amigos. Não quero forçar nada. Hoje é domingo pouco antes do almoço. A casa está vazia. Eu gostaria de ter escrito logo depois daquela noite. É incrível, mas há duas décadas, nesse mesmo dia da semana, nessa mesma hora, eu estava nascendo.

— É bonito — eu arrisquei. — Um pouco juvenil, talvez. Mas bonito.

Afinal, a adolescência é sempre bonita.

— Ele tem vinte anos.

— Ele? Como é que você sabe que é ele e não ela?

— Eu acho, eu sinto. Uma mulher não escreveria essas coisas. Não sei, o jeito de escrever, alguma coisa.

— Pode ser — eu disse.

— E tinha uma outra carta, acho que não mostrei a você. Ele dizia que estava cansado, isso mesmo, cansado e não cansada.

— Não lembro — menti. — E ele pode estar mentindo. Essa data, por exemplo, essa data pode ser inventada.

Ele evitou meus olhos ao contar:

— Fui consultar um astrólogo. Ele nasceu a 22 de setembro de 1954. Entre mais ou menos dez e meio-dia. É de Virgem, o astrólogo disse, do último dia de Virgem. Pelos cálculos, o ascendente deve ser Escorpião.

— Ascendente?

— É o signo que. — Ele levantou os olhos, irritado. Escuta, você não vai querer agora que eu te dê uma aula de astrologia, vai?

— Não, não. Só queria saber o que quer dizer isso.

— Quer dizer que ele deve ser inteligente. Muito inteligente. E secreto, misterioso, intenso. Só pelas cartas qualquer um percebe que ele tem certa... certa estrutura. As cartas são bem escritas, a gramática é sempre correta.

— É verdade — eu disse. — Corretíssima.

Ele sentou na beira da cama. E afundou no travesseiro:

— Não agüento mais. Isso tem quase dois meses. Preciso saber quem é essa pessoa.

Sentado aos pés da cama, eu não sabia o que dizer.

— Ele sabe tudo sobre mim, os meus horários, tudo. As vezes fala de pessoas que conheço, de lugares onde vou. Deve estar sempre por perto, deve conhecer muita gente que eu conheço.

— Você está muito agitado.

— Claro. Como é que você queria que eu estivesse? Cada vez que recebo uma carta dessas fico assim. Me dá uma sensação estranha, saio na rua com a impressão que estou sendo observado. Alguém que eu não sei quem é acompanha todos os meus passos.

— Com amor — eu disse.

Ele acendeu um cigarro e ficou seguindo a fumaça até o teto:

—Amor? Não sei. É meio paranóico. Parece uma coisa para enlouquecer a gente devagar.

— Ou para fazer que você se interesse por ele. Levantou-se de repente e debruçou-se na mesa. De costas, eu só podia ver seus ombros curvos e as duas mãos abertas segurando a cabeça desgrenhada. Fico imaginando as histórias mais incríveis. Às vezes acho que é alguém querendo divertir-se comigo.

— Não. — E eu disse pela segunda vez: — Isso é amor.

— Será? Tem coisas, tem coisas que ele escreve que parecem. Não sei, parecem verdade, entende? Ele me toca, mexe comigo. Talvez eu esteja assim todo lisonjeado porque alguém parece prestar tanta atenção em mim.

— Isso é amor — eu repeti pela terceira vez. Ele caminhou até ajanela. Percebi que olhava as folhas das palmeiras no meio da rua, remexidas pelo vento norte.

— As vezes tenho vontade de bancar o detetive. Mas as pistas são muito tênues. Selos comuns, envelope comum, cada dia um carimbo de uma agência diferente. E esse tipo de máquina é o mais comum que existe.

— Lettera 22.

Ele jogou a ponta do cigarro pela janela, voltou- se de repente e me olhou nos olhos:

— Como é que você sabe?

— Bom, qualquer um que lida com máquina de escrever reconhece logo. E inconfundível — eu afirmei. E mudei de assunto: — Mas não deixa de ser bonito.

— Bonito e infernal.

— É antigo.

— Cartas anônimas. Parece coisa de romance do século passado. Romance epistolar. Platônico. — Suspirou fundo. — Mas eu preciso saber logo quem é esse rapaz. Nunca ninguém se interessou tanto por mim.

Tornou a sentar na mesa, acendeu outro cigarro. Estendi o cinzeiro para ele:

— Você sempre fuma demais nas quintas-feiras.

Ele riu:

— Agora nas quartas também. Fico pensando se no dia seguinte vai chegar outra carta. — Tragou fundo, olhos fechados. E acrescentou, soltando a fumaça:

— Também tenho escrito para ele.

— O quê?

— Tenho escrito para ele, escondido.

— Você não contou nada para Martha?

— Está louco? Você sabe como ela é ciumenta, contei só para você. Eu tenho que me esconder para escrever. Trancado no escritório, fico pensando que deve haver uma espécie assim de espírito do que eu estou escrevendo que sai pela janela, eu deixo sempre a janela aberta quando escrevo para ele, depois voa sobre os telhados e atravessa as ruas da cidade e as paredes para chegar até onde ele está, percebe?

— E o que você faz com as cartas que escreve?

— Guardo. A sete chaves. Um dia talvez possa entregá-las pessoalmente.

Eu também acendi um cigarro:

— E... o que você diz nessas cartas?

— Eu peço socorro. Eu digo que o meu casamento é um horror, já três anos desse horror que não acaba. Sabe que agora a Martha deu pra me chamar de fofo? Tem coisa mais odiosa? No domingo me pede uma parte do jornal e fica dizendo “olha só, fofo, precisamos aproveitar essa liquidação aqui, fofo, vai só até o dia 15, fofo”.

— Mas a Martha era uma mulher tão... especial.

— Antes de casar. Depois que casa, toda mulher vira débil mental. Bem fez você que não entrou nessa.

Eu apaguei o cigarro:

— E o que mais você diz nessas cartas?

Ele curvou-se outra vez sobre a mesa, uma das mãos apoiava a cabeça, a outra passava lenta no tampo de madeira. Como uma carícia:

— Digo que às vezes eu tenho vontade de ter outra vez um amigo como aqueles que a gente tinha na adolescência. Aqueles pra quem você contava tudo, absolutamente tudo. E que no fim você nem sabe mais se é amigo ou irmão.

— Ou amante.

— Ou amante — ele repetiu. Depois jogou-se outra vez na cama, tirou uma folha amassada do bolso e leu: — Eu digo que estou disposto a qualquer coisa, eu digo assim: “Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada. Daqui há pouco você vai crescer e achar tudo isso ridículo. Antes que tudo se perca, enquanto ainda posso dizer sim, por favor chegue mais perto”.

Dobrou a folha e tomou a enfiá-la no bolso, ainda mais amassada.

Ficamos nos olhando. Eu não sabia o que dizer. Ele afundou novamente na cama, virou-se para a parede. Fiquei ouvindo:

— Falo para você um pouco como se fosse para ele. Se você pudesse me ajudar, se ele pudesse me ajudar. É tão complicado. Saio na rua e fico olhando todos os meninos de vinte anos, como se cada um pudesse ser ele. Ando sentindo umas coisas que não entendo direito. Não gosto de não entender o que sinto. Não gosto de lidar com o que não conheço. Eu nunca vivi nada assim. Um vento mais forte abriu a janela, fazendo voar as cinzas do cinzeiro sobre a mesa. Ele parecia menor, encolhido sobre a cama. Eu continuei ouvindo:

— Já tenho trinta e quatro anos, não posso sentir as coisas como se tivesse quinze. Você sabe, nós temos quase a mesma idade. Quanto você tem agora?

— Trinta e três — eu disse.

— Pois é, você sabe bem. A gente não tem mais idade pra ficar com esses delírios.

— Você acha que não? — eu perguntei. Mas ele continuou a falar sem ouvir.

— E tão estranho de repente saber que tem alguém pensando em mim o tempo todo. Alguém que eu não conheço. E que tem vinte anos. Fico pensando umas coisas loucas, não consigo parar.

— Que coisas — eu perguntei em voz baixa —, que coisas você pensa?

Ele passou a mão pela parede branca:

— Deitar do lado dele. Sem roupa. Abraçá-lo com força. Beijá-lo. Na boca. — Crispou a mão na parede e puxou-a para junto do corpo, para o meio das pernas. — Deve ser o vento norte, esse excesso de luz, a primavera chegando, a lua quase cheia. Não sei, desculpe. Eu estou muito confuso.

Ficou calado de repente. Olhava pela janela como se estivesse vendo algo, além das palmeiras, que eu não conseguia ver. Eu continuava sem saber o que dizer. Cheguei a chegar mais perto para estender a mão e tocar nos seus cabelos desgrenhados. E se ele não tivesse só vinte anos, esse rapaz, pensei em perguntar, você continuaria a gostar dele? Mas achei melhor não dizer nada. Parei minha mão no ar, depois puxei-a de volta para pegar outro cigarro. Mas continuei perto dele. Mais perto, bem perto. Era outra quinta-feira, esta de setembro, e desde o início de agosto nós andávamos os dois muito confusos.


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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

* A morte dos girassóis

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Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo lenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na quinta-feira”. Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral”.

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.

Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.

Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, crau! Veio uma chuva medonha e deitou-o por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a idéia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro. Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma de-santa-rita lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.



Zero Hora, 18/3/1995


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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

* Sem Ana, blues

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Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela.

Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca de oito horas da noite, com o bilhete dela nas mãos. No horário de verão, pela janela aberta da sala, à luz das oito horas da noite podiam-se ainda ver uns restos de dourado e vermelho deixados pelo sol atrás dos edifícios, nos lados de Pinheiros. Eu fiquei muito tempo parado no meio da sala do apartamento, o último bilhete de Ana nas mãos, olhando pela janela os vermelhos e os dourados do céu. E lembro que pensei agora o telefone vai tocar, e o telefone não tocou, e depois de algum tempo em que o telefone não tocou, e podia ser Lucinha da agência ou Paulo do cineclube ou Nelson de Paris ou minha mãe do Sul, convidando para jantar, para cheirar pó, para ver Nastassia Kinski nua, perguntando que tempo fazia ou qualquer coisa assim, então pensei agora a campainha vai tocar. Podia ser o porteiro entregando alguma correspondência, a vizinha de cima à procura da gata persa que costumava fugir pela escada, ou mesmo alguma dessas criancinhas meio monstros de edifício, que adoram apertar as campainhas alheias, depois sair correndo. Ou simples engano, podia ser. Mas a campainha também não tocou, e eu continuei por muito tempo sem salvação parado ali no centro da sala que começava a ficar azulada pela noite, feito o interior de um aquário, o bilhete de Ana nas mãos, sem fazer absolutamente nada além de respirar.

Depois que Ana me deixou - não naquele momento exato em que estou ali parado, porque aquele momento exato é o momento-quando, não o momento-depois, e no momento- quando não acontece nada dentro dele, somente a ausência de Ana, igual a uma bolha de sabão redonda, luminosa, suspensa no ar, bem no centro da sala do apartamento, e dentro dessa bolha é que estou parado também, suspenso também, mas não luminoso, ao contrário, opaco, fosco, sem brilho e ainda vestido com um dos ternos que uso para trabalhar, apenas o nó da gravata levemente afrouxado, porque é começo de verão e o suor que escorre pelo meu corpo começa a molhar as mãos e a dissolver a tinta das letras no bilhete de Ana - depois que Ana me deixou, como eu ia dizendo, dei para beber, como é de praxe.

De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca – de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrima chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo na boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi também o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o Pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos dos sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.

Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vodca, lágrima, café e às vezes também de vômito; misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas que costumava pedir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver- semvocê, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.

Mandei para a lavanderia os lençóis verde-clarinhos que ainda guardavam o cheiro de Ana - e seria cruel demais para mim lembrar agora que cheiro era esse, aquele, bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa, mudei os móveis de lugar, comprei um Kutka e um Gregório, um forno microondas, fitas virgens de vídeo, duas dúzias de copos de cristal, e comecei a trazer outras mulheres para casa. Mulheres que não eram Ana, mulheres que jamais poderiam ser Ana, mulheres que não tinham nem teriam nada a ver com Ana. Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles, se Ana tinha os cabelos quase louros, eu as trazia de cabelos pretos, se Ana tinha a voz rouca, eu as selecionava pelas vozes estridentes que gemiam coisas vulgares quando estávamos trepando, bem diversas das que Ana dizia ou não dizia, ela nunca dizia nada além de amor-amor ou meu-menino-querido, passando os dedos da mão direita na minha nuca e os dedos da mão esquerda pelas minhas costas. Vieram Gina, a das calcinhas pretas, e Lilian, a dos olhos verdes frios, e Beth, das coxas grossas e pés gelados, e Marilene, que fumava demais e tinha um filho, e Mariko, a nissei que queria ser loura, e também Marta, Luiza, Creuza, Júlia, Deborah, Vivian, Paula, Teresa, Luciana, Solange, Maristela, Adriana, Vera, Silvia, Neusa, Denise, Karima, Cristina, Márcia, Nadir, Aline e mais de quinze Marias, e uma por uma das garotas ousadas da rua Augusta, com suas botinhas brancas e minissaias de couro, e dessas moças que anunciam especialidades nos jornais. Eu acho que já vim aqui uma vez, alguma dizia, e eu falava não lembro, pode ser, esperando que tirasse a roupa enquanto eu bebia um pouco mais para depois tentar entrar nela, mas meu pau quase nunca obedecia, então eu afundava a cabeça nos seus peitos e choramingava babando sabe, depois que Ana me deixou eu nunca mais, e mesmo quando meu pau finalmente obedecia, depois que eu conseguia gozar seco ardido dentro dela, me enxugar com alguma toalha e expulsá-la com um cheque cinco estrelas, sem cruzar - então eu me jogava de bruços na cama e pedia perdão a Ana por traí-la assim, com aquelas vagabundas. Trair Ana, que me abandonara, doía mais que ela ter me abandonado, sem se importar que eu naufragasse toda noite no enorme corredor de transatlântico daquele apartamento em plena tempestade, sem salva-vidas.

Depois que Ana me deixou, muitos meses depois, veio o ciclo das anunciações, do I Ching, dos búzios, cartas de Tarot, pêndulos, vidências, números e axés - ela volta, garantiam, mas ela não voltava - e veio então o ciclo das terapias de grupo, dos psicodramas, sonhos junguianos, workshops transacionais, e veio ainda o ciclo da humildade, com promessas a Santo Antônio, velas de sete dias, novenas de Santa Rita, donativos para as pobres criancinhas & velhinhos desamparados, e veio depois o ciclo do novo corte de cabelos, da outra armação para os óculos, guarda-roupa mais jovem, Zoomp, Mr. Wonderful, musculação, alongamento, ioga, natação, tai-chi, halteres, cooper, e fui ficando tão bonito e renovado e superado e liberado e esquecido dos tempos em que Ana ainda não tinha me deixado que permiti, então, que viesse também o ciclo dos fins de semana em Búzios, Guarujá ou Monte Verde e de repente quem sabe Cana, mulher de Vicente, tão compreensiva & madura, e inesperadamente Mariana, irmã de Vicente, tão disponível & natural em seu fio- dental metálico e, por que não, afinal, o próprio Vicente, tão solícito na maneira como colocava pedras de gelo no meu escocês ou batia outra generosa carreira sobre a pedra de ágata, encostando levemente sua musculosa coxa queimada de sol e windsurf na minha musculosa coxa também queimada de sol e windsurf. Passou-se tanto tempo depois que Ana me deixou, e eu sobrevivi, que o mundo foi-se tornando aos poucos um enorme leque escancarado de mil possibilidades além de Ana. Ah esse mundo de agora, assim tão cheio de mulheres e homens lindos e sedutores e interessantes e interessados em mim, que aprendi o jeito de também ser lindo, depois de todos os exercícios para esquecer Ana, e também posso ser sedutor com aquele charme todo especial de homemquase- maduro-que-já-foi-marcado por-um-grande-amor-perdido, embora tenha a delicadeza de jamais tocar no assunto. Porque nunca contei a ninguém de Ana. Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou.

Por todas essas coisas, talvez, é que nestas noites de hoje, tanto tempo depois, quando chego do trabalho por volta das oito horas da noite e, no horário de verão, pela janela da sala do apartamento ainda é possível ver uns restos de dourado e vermelho por trás dos edifícios de Pinheiros, enquanto recolho os inúmeros recados, convites e propostas da secretária-eletrônica, sempre tenho a estranha sensação, embora tudo tenha mudado e eu esteja muito bem agora, de que este dia ainda continua o mesmo, como um relógio enguiçado preso no mesmo momento - aquele. Como se quando Ana me deixou não houvesse depois, e eu permanecesse até hoje aqui parado no meio da sala do apartamento que era o nosso, com o último bilhete dela nas mãos. A gravata levemente afrouxada no pescoço, fazia e faz tanto calor que sinto o suor escorrer pelo corpo todo, descer pelo peito, pelos braços, até chegar aos pulsos e escorregar pela palma das mãos que seguram o último bilhete de Ana, dissolvendo a tinta das letras com que ela compôs palavras que se apagam aos poucos, lavadas pelo suor, mas que não consigo esquecer, por mais que o tempo passe e eu, de qualquer jeito e sem Ana, vá em frente. Palavras que dizem coisas duras, secas, simples, irrevogáveis. Que Ana me deixou, que não vai voltar nunca, que é inútil tentar encontrá-la e finalmente, por mais que eu me debata, que isso é para sempre. E para sempre então, agora, me sinto uma bolha opaca de sabão, suspensa ali no centro da sala do apartamento, à espera de que entre um vento súbito pela janela aberta para levá-la dali, essa bolha estúpida, ou que alguém espete nela um alfinete, para que de repente estoure nesse ar azulado que mais parece o interior de um aquário, e desapareça sem deixar marcas.


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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

* O rato

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Assim: do lado direito, um casal de velhos; do lado esquerdo, uma mulher com duas crianças atrás, dois rapazes de ar indefinido à frente, a toalha vermelha da mesa ampliando-se em perspectiva até a janela aberta para a noite. O ar ressecado estrangula os movimentos, depositado como poeira sobre as faces desfeitas de feições, expressões escorrendo em suor ao calor inesperado sobrevindo depois da chuva. Um rato caminha sobre uma das vigas de sustentação. Ele olha o rato, e o rato não o vê. Olha o rato, mas as outras pessoas não sabem que seu olhar olha o rato. Sozinho naquele bar, naquela rua, em todos os bares em todas as ruas do mundo, no mundo inteiro - sozinho: ele e o rato, natureza cinza equilibrada sobre quatro patas.

- Você prefere lasanha ou ravióli?

- O meu dia só existe porque você existe dentro dele.

- Garçom, por favor .

- Vou-me embora, não suporto mais este bar, este calor, esta mesa. Não suporto mais você.

- Eu quero batatinha frita.

- Hoje existir me dói feito uma bofetada.

- Sem cebola, por favor.

Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu. Não vê, mas pode sentir o toque áspero da pele recoberta de pêlos em suas mãos que seguram o garfo e a faca, e o toque é quase uma carícia - uma nauseante carícia de bicho à procura de qualquer coisa. Mas o rato está em cima; ele estava em baixo, o sexo enrijecido, a mulher se movimentando sobre ele. Uma lassidão de coisa cujo destino é possuir, mas submetida à posse, quem sabe ampliada no escuro. Expandia-se dentro de si num movimento de revolta e nojo. Muito próximo do seu, o rosto da mulher aberto numa quase careta de gozo, os dentes manchados de cigarro espiando por entre os beiços cobertos de batom que as gotas de suor faziam escorrer. Apertou-a contra si, as mãos comprimidas na bunda áspera. O sexo explodiu numa chuva densa, enquanto olhava estupidamente para o fio de luz coado pela janela.

- Não posso comer massa, meu bem, engordo horrores.

- Porque se você não vem é como se o tempo fosse passado em branco, como se as coisas não chegassem a se cumprir porque você não soube delas.

- Infelizmente o camarão acabou.

- Estou completamente cheio.

- Bem molezinha, com bastante sal.

- Mas este prato está sujo, que absurdo!!!

- Tudo dói, e eu já nem sei mais para onde ir nem o que fazer, se ao menos – você me amasse um pouco, não estaria aqui e agora, neste bar, sozinho, longe de você e de mim.

O rato, agora, em passos hesitantes, a cauda enroscando-se em madeiras. Esfarela devagar um pedaço de pão, o miolo escorre por entre os dedos, feito água, feito vento, feitos todas as coisas que passam e não marcam em nada, em nenhum recanto do corpo físico além da memória. Aqui e agora, pedindo mais uma cerveja ao garçom vestido de branco, bigodes retorcidos para baixo. Cercou-o devagar: um cuidadoso exame de comprador investigando a mercadoria, a medir de cima abaixo, da cabeça aos pés, a largura do tórax, a grossura das coxas, as mãos de dedos grossos nas juntas, os olhos escondidos debaixo das sobrancelhas, a barba forte azulando o rosto - como se conseguisse ir além da calça azul e da camisa branca limitando a carne. O sexo: ponto de chama entre as pernas. Estende a mão, mas o rato foge num movimento brusco.

- Prefiro carne, ao menos não engorda tanto.

- E se você vem, fica tudo maior, mais amplo, sei lá mas é como se eu existisse dum jeito mais completo, compreende?

- Temos peixe. Filé de peixe, serve?

- De repente parece que todo mundo vai começar a morder a gente.

- Feijão não, eu odeio feijão.

- Uma merda, tudo. Uma grande merda.

Súbito escorrega para uma região desconhecida, onde tudo se dilui em sombra, em silêncio. Na sombra e no silêncio, o rato desliza manso, subindo a parede até alcançar novamente a viga que o sustenta. A mulher o encarou ofendida: se você gosta de homem, o problema é seu, meu filho, não tenho nada com isso. Insistiu. O guarda o soltou e ele saiu caminhando de cabeça baixa, depois de ter jogado o cartaz na sarjeta: "O povo passa fome". Jamais olhava para trás, jamais: o que estava feito, estava feito, estava consumado, estava para sempre imutável, inamoldável, fechado em si mesmo, estanque: o tempo. Ela sorriu de lado, a língua metida na falha entre os dois dentes. Concordou. Meteu a mão no bolso, procurando a carteira, e sentiu o quase toque nos seus sapatos. Cerrou os dentes, o sexo latejava, estendeu a mão e tocou. Imóvel - o homem. O indecifrável dos olhos, do vinco marcando a boca, espreitando o tenso. Eu pago, disse. Mas o rato voltou, sem que ninguém o veja.

- Tudo bem, um bife, mas bem pequenininho, bem passado e sem molho, hein?

- Ninguém toma de ninguém esse tipo de coisa, ninguém.

- Temos sopas, também. Madame é quem sabe.

- Me deixa ir embora. Eu não quero mais te ver. Nunca mais.

- Arroz? Mas eu só queria batatinha.

- E a faca? Será que é preciso comer com as mãos?

- Se ao menos dessa revolta, dessa angústia, saísse alguma coisa que prestasse.

Qualquer coisa: eu teria ao menos algo em que me segurar, qualquer coisa. O extremo da revolta seria a coisa feita, pronta para que segurassem nela. Eram vermelhos? Ou seriam azuis? Nunca vira os olhos de um rato bem de perto. Só a cauda, estendendo-se de elo em elo, até o final pontudo, como uma serpente. Não suportaria encarar um animal, qualquer que fosse. Aquela inconsciência de si mesmo, a ausência de indagações, de marcas- a isenção o deixava paralisado, como uma ferocidade inesperada: um animal, o homem nu, estendido sobre a cama. Tocava o sexo, e o sexo vibrava. A cama vibrava. A noite vibrava. O mundo vibrava. Alinhou um a um os farelos na esquina, formando um nome com o líquido da urina. A mão machucada de sustentar o grito do cartaz, os pés sob a revolta, os ombros doídos embaixo da contestação. Foi de repente que começou a correr para longe daquilo, esmagado pela exigência, pelo espanto de estar pedindo alguma coisa que nem para si era. Pedir exigia uma participação íntima que ele não tinha, e seus gritos ressoariam falsos por todas as esquinas, seus ombros curvariam ao peso acumulado, a cabeça baixa, rabo entre as pernas. O susto do rato com a bolinha de pão jogada sobre a cabeça.

- Imagine, ele falou que tinha achado o chapéu detestável.

- Só eu sei que cheguei à humildade máxima que um ser humano pode atingir: confessar a outro ser humano que precisa dele para existir.

- Quem sabe uma feijoada?

- Daqui a pouco vai começar a chover de novo.

- Tá bem, mas só se vier um sorvete depois.

- Quer fazer o favor de me alcançar o copo?

- Mas não sai nada. Nada. Nem uma lágrima.

Aproxima-se. Os olhos agrandaram na procura consumada em encontro, as patas avançaram para o objeto - o cinzento arrastando-se sobre o amarelo dos tapetes.

- Inveja, pura inveja, conheço demais essa gente.

- E no momento em que se confessa a precisão, perde-se tudo, eu sei.

- Não? Quem sabe então um... um... um...

- Não adianta insistir. Agora eu vou.

- De creme, não. Quero de morango.

- E essa coca-cola que não vem?

- Sei lá, vou dormir que é melhor.

Agrandava-se. Senhora dona Cândida, coberta de ouro e prata, descubra o seu rosto, quero ver a sua graça. Descobria-se. Afastava o ouro, a prata, as mãos que escondiam o rosto e dentro - o que havia? Contém-se e começa a contar-se baixinho: Era uma vez: assim: do lado direito, um casal de velhos; do lado esquerdo, uma mulher com duas crianças; atrás, dois rapazes de ar indefinido; à frente, a toalha vermelha da mesa ampliando-se em perspectiva até a janela aberta para a noite. E o rato. Quis gritar, mas era tão tarde, era muito tarde, era sempre tarde. Viu o garçom arrumando os pratos sobre a mesa, a fumaça elevando-se da comida quente. Mas a vidraça ainda não refletia a cor exata dos olhos. Baixou a cabeça para o prato, apoiado nas quatro patas cinzentas, o focinho fino, as pessoas esfarelando pães e jogando-lhe pedaços, espantou-se da delicadeza de sua próprias garras, da leveza de seu próprio corpo, agora apertam sua cauda entre os pés, e ele foge, tenta fugir, mas alguém sopra em seus ouvidos algo parecido com uma canção de ninar. Ou uma canção de guerra, de ódio, de nojo, de sangue, uma cantiga de roda, ou simplesmente um grito estridente, agudo, trêmulo, incompreensível. Um grito humano.



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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

* Novas notícias de um jardim ao sul

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E o seu jardim, perguntam os leitores, como vai? Vai bem, respondo, embora na minha mente ele seja muito mais, digamos, exuberante que na real. É que jardins são exaustivos feito relações humanas. Tem que cuidar todo dia, regar, podar, arrancar erva daninha, expulsar caramujo do mal, formiga temática, pragas mais diabólicas que o vírus Ebola. Planta mal cuidada fenece que nem amizade sem trato.


Mas tenho aprendido coisas. Gladíolos, por exemplo, uma decepção. Florescem só uma vez — palmas lindas, brancas, espirituais — depois viram hastes secas. Petúnias, após o deslumbramento inicial, tanta cor (só não tenho das laranja), começaram a churriar escandalosamente. Desconfiei que estavam sendo sufocadas pelas cravinas. Troquei as cravinas de lugar, e no momento são o grande sucesso do jardim, em todos os tons de amarelo e laranja que se possa imaginar. Mas as petúnias continuam a dar pra trás, sem papo nem adubo, que se há de fazer?


Outro sucesso atual é uma folhagem rajada de verde e vermelho, algumas de verde e branco, que meu pai diz chamar-se tinhorão, mas insiste em chamar de tigrina. As tigrinas são ótimas, bem-dispostas, saudáveis, e parecem muito felizes. Há também as zínias, que me fazem lembrar sempre da Emília do Monteiro Lobato, dizendo que a zínia é uma flor que parece que ainda não encontrou sua forma definitiva, tem sempre uma pétala fora do lugar, alguma coisa torta. As minhas são mínimas e discretíssimas, quase ninguém vê. Mais discretas só as minionze-horas, de vez em quando desaparecem durante dias, depois pintam com uma fugaz e deslumbrante florzinha amarela.


E expectativas: crisântemos em vias de florescer, amoresperfeitos por enquanto um pouco aperreados. E gratificações: as íris brancas, e esguias, em forma de pequenos sinos góticos, com cruzes lilases dentro e seu doce perfume litúrgico, que só perde para o das angélicas. Aliás, tem uma angélica que ia indo muito bem e agora empacou. Falar em empacotamento, depois de meses, Lygia, a roseira branca, pirou tanto que outro dia tomei um banho para Oxalá com três rosas colhidas diretamente no pé; Sônia, a amarela, está com dois botões muy salerosos; Odete, a vermelha, desde o início a mais perua, com duas rosas escancaradas à la García Lorca e vários botões se preparando. Rosa se prepara tanto para abrir, ela já sabe que é rainha, é por isso mesmo?


No momento não é prudente plantar muito. Plantei tanto no verão que agora volta e meia brota alguma folha que simplesmente não sei o que será. E tenho medo de atrolhar a terra por dentro: se houver alguma coisa querendo nascer e não houver espaço? Tem um narciso demoradíssimo que não sei se gorou, atrolhou ou estará ainda se preparando. Andei pensando: já que se trata de narciso, será que um espelho ao lado ajudaria? Mas passam muito bem a hortênsia, crescendo a olhos vistos; as duas az aléias, todo dia com flor nova; os brincos-de-princesa que comecei a tramar em cordões para puxar até a sacada do andar de cima, desde dezembro coberta por uma apoteose de alamandas; a ráfia, uma espécie de palmeira que faz pensar em deserto e Egito; o bravo jasmineiro sempre em luta titânica contra formigas canibais.


Acho crime matar as crescidas, mas já me atrevo a arrancar mudinhas que brotam por todo canto. Rego pouco, não dou muita prosa, deixo bem claro que estão ali por mera covardia minha, vítima da síndrome da Alice do Woody AlIen. Maria-sem-vergonha, se você não atina, toma conta de tudo. Agora, as que estão sempre ótimas são as marias-sem-vergonha, as descaradas. E é isso, acho, o que mais me martiriza e conflitua num jardim: como decidir o que deve ou não viver? Pás e tesoura nas mãos, demiúrgico, o poder cabe a mim. Imaginem só, então, a angústia daquele pobre Deus, em algum lugar, contemplando a nós, viventes...


O Estado de S. Paulo, 16/4/1995


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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

* Carta de Caio F. à Ruy Krebs

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...................................... São Paulo, 05 de junho de 1985.


Ruy, muito querido,

Você ainda está aí? Não recebi mais nenhuma linha - bom, mas também não escrevi mais-nem-uma-linha. Portanto, reticências ... Mas estou te escrevendo agora, cair da noite de uma sexta-feira quente, de lua ainda cheia, ouvindo Louis Armstrong, tomando chimarrão, porque abri de repente um caderno e me caiu de dentro essa página da Veja, que havia recortado para você - veja só - em Presidente Prudente, mais de um mês atrás.

Difícil ser sintético para dar um panorama daqui. O país está patético, desde a morte não totalmente esclarecida - (há boatos até hoje sobre uma injeção de bactérias e baixarias quetais, bem republiqueta, bem sul-americanas) - Tancredo Neves. Os psico-sociólogos dizem que foi o momento em que o povo finalmente percebeu que Deus não é, nunca foi e nunca será brasileiro. A melancolia é total. Além da inflação há uma paranóia solta no ar: AIDS. Impossível dizer até que ponto tornou-se mais um prato de resistência da imprensa sem novidade, mas de qualquer forma a doença existe e instaurou um novo comportamento entre as pessoas. Que mal se tocam.
Tenho me sentido bastante mal com isso. Para quem, como eu, por alguma deficiência emocional, ou ao contrário, por extrema saúde, nunca fui capaz de conquistar isso que chamam de "pareceiro fixo" - a consequência da paranóia é uma extrema solidão. Como se nunca mais o amor fosse bater na sua porta. A noite está vazia, ninguém se procura mais, ninguém se encontra. Vou me virando com minha tendência à depressão cada vez mais forte, e agora especialmente agravada por isso.

Profissionalmente as coisas estão bem, continuo na Around, na IstoÉ, comecei a colaborar com o Jornal da Tarde e a gravar, uma vez por semana, resenhas e livros para um programa da TV Cultura.

Estou também mergulhando de cabeça num livro novo - e isso é o que melhor posso te contar de mim. A Brasiliense me fez uma boa proposta: pagar um salário durante quatro meses, para que eu pudesse trabalhar menos e me dedicar a esse romance encruado que tenho na cabeça há três anos. Bom, está saindo. Por enquanto chama-se Desesperadamente, ou Onde Andará Dulce Veiga? Avança lentissimamente, é talvez a coisa mais lenta que já escrevi em toda minha vida. Estou tentando uma técnica nova, que chamo de caleidoscópio verbal: são figuras que se formam, à medida que o texto vai avançando, e da qual se destacam um ou dois elementos que formam uma figura nova, e assim por diante. A fragmentação, portanto, é apenas aparente, porque a intenção é conseguir um fluxo ininterrupto. Loucuras que me servem para a extruturação interior da coisa. Talvez o possível leitor mal perceba. Mas o livro é o que está me mobilizando no momento. E só isso. Andei amargo, andei achando inútil escrever, andei travado por mil coisas de dentro e de fora. Mas é o que sei fazer. A vida perderia um pouco de sentido que ainda tem se um dia eu desistisse. Então não desisto de encher laudas e laudas de palavras contando histórias que nunca aconteceram, embora consciente da inutilidade disso.

Deve ser o tempo, a proximidade dos quarenta anos (que meeeeedo), as nossas células e neurônios fatigados, mas vai baixando a humildade tão grande. Reduzi tanto os meus sonhos, minhas fantasias, minhas esperanças. Ando espantado com O Tempo. O tempo é a única coisa terrível que existe. O Tempo que passa e leva de arrasto, aparentemente aleatório, a juventude nosa e dos outros. Não é amargo, é apenas real. Só hoje começo a compreender certa expressão de espanto inconsolável que muitas vezes percebi nos olhos de meu pai. Meus olhos estão ganhando pouco a pouco uma expressão semelhante.

Então, tenho ouvido Armstrong, Billie Holliday, Bessie Smith, Theloniius Monk, Dinah Washington, os gemidos dos blues.

Quase sete e meia, devo sair daqui a pouco - vou me forçar a sair de casa para assistir ao Estagium com Fernanda, que é linda e também dança. Como hoje é sexta, e só vou poder colocar essa carta no correio na segunda vou deixar em aberto para acrescentar mais. Ah: comprei a poesia completa de Cecília Meirelles e vou procurar alguma coisa para interromper aqui.

Antes tenho pensado em ti nos meus escritos. Outro dia foi um conto chamado Beatriz que o destino desfolhou, escrito para uma antologia sobre a adolescência organizada pela Fanny Ambromovich. Remoí meses, uma história sobre Tânia Pinto, lembras dela? - aquela garota que foi minha namorada e morreu de leucemia, aos 15 anos. Também se passa em Passo da Guanxuma e que é uma Santiago do Boqueirão ficcionalizada. Em Dulce Veiga tem muito Passo da Guanxuma, acho que você vai reconhecer coisas i rir, sentir saudades talvez.

Bom, lá vai Cecília, deixa eu procurar. Que tal este de 1959?

"Esgueiro-me por entre a pedra e a nuvem:
belas cidades, deixai-me passar.
Ai dos meus encontros!

Por esses encontros, esgueiro-me, fujo
por entre palavras, por entre pessoas.
Ai dos meus encontros!

Que encontros são esses? Com quem? e quando?
Comigo. No sempre dos longes e pertos.
Ai dos meus encontros!
Deixai-me passar!

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Ruy Krebs

Ruy e Caio foram amigos desde a infância em Santiago, estudaram no colégio estadual Cristóvão Pereira. Moraram juntos em Porto Alegre, quando finalizaram os estudos no ensino médio. A amizade sempre resistiu a todas as distâncias.

(Acervo de Ruy Krebs)


Fonte: Livro sobre o Caio, do projeto; "Santiago do Boqueirão, seus poetas quem são?"
Que me foi enviado com tanto carinho por pessoas queridas do Passo da Guanxuma.


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domingo, 10 de outubro de 2010

* O destino desfolhou

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........................................Em memória de
........................................Tânia Beatriz Pacheco Pinto.
........................................E para
........................................Fanny Abramovich,
........................................que me fez lembrar.


VÊNUS.

Há seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema - um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves -, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.

Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se - não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de Como Tudo Começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz.

Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia. Ele lembrava de um copo de guaraná, da saia de veludo da mãe - sempre ficava enroscado na mãe, nas festas, espiando de longe os outros, os da idade dele. Lembrava do copo de guaraná, da saia de veludo (seria verde-musgo?) e do balão de gás que segurava. Então a mãe perguntou, de repente, qual a menina da festa que ele achava mais bonita. Sem precisar pensar, respondeu:

- Beatriz.

A mãe riu, jogou para trás os cabelos - uns cabelos dourados, que nem o guaraná e a luz de verão - e disse assim:

- Credo, aquela estrelete?

Anos mais tarde, não encontraria no dicionário o significado da palavra estrelete. Mas naquele momento, ali com o balão numa das mãos, o guaraná na outra, cotovelos fincados no veludo (seria azulmarinho?) da saia da mãe, pensou primeiro em estrela. Talvez por causa do movimento dos cabelos da mãe, quando tudo brilhou, ele pensou em estrela. Uma pequena estrela. Uma estrela magrinha, meio nervosa. Beatriz tinha um pescoço longo de bailarina que a fazia mais alta que as outras meninas, e um jeito lindo de brilhar quando movia as costas muito retas, olhando adulta em volta.

Estrelete estrelete estrelete estrelete - repetiu e repetiu até que a palavra perdesse o sentido e, reduzida a faíscas, saísse voando junto com o balão que ele soltou, escondido atrás do taquareiro. Bem na hora em que o sol sumia e uma primeira estrela apareceu. Estrela D’Alva, Vésper, Vênus, diziam. Diziam muitas coisas que ele ainda não entendia.

CENAS

A outra cena acontecia num dos festivais de fim de ano do Grupo Escolar, no Cine Cruzeiro do Sul.

Ele estava na platéia, porque não sabia cantar nem dançar nem declamar, nem nada que os outros pudessem sentar e aplaudir - como ele sentava e aplaudia agora. Então Beatriz entrava no palco com um vestido branco repolhudo, sentava numa cadeira e a professora apresentadora colocava um acordeom nos braços dela. Embora alta demais para a idade, Beatriz quase desaparecia no palco do cinema, atrás daquele enorme acordeom. Dava só para ver o rosto pálido, sério, a franja lisa acima do instrumento, as pernas compridas abaixo, tão finas que os carpins de renda desabavam sobre os sapatos de verniz preto e presilha. As duas mãos de unhas roídas, nas teclas.

Então, acontecia. Na memória, anos depois, tinha a impressão de que havia um silêncio pouco antes dela começar. Um silêncio precedendo o brilho. Talvez não, só fantasias.

De repente, logo após esse silêncio incerto, os dedos de unhas roídas de Beatriz começavam a mover-se sobre as teclas. Do acordeom e da voz dela, uma voz fina de vidro, agulha, espinho, brotava aos poucos uma valsinha chamada O Destino Desfolhou. O-nosso amor-traduziafelicidade-e-afeição, ele lembraria, suprema-glória-que-um-dia-tive ao-alcance-da-mão. O coração bateu mais forte. Como quando soltara o balão, de tardezinha, atrás do taquaral. E alguma coisa brilhou no ar entre vermelho e roxo do entardecer, no meio das paredes descascadas do Cine Cruzeiro do Sul. Era tudo: cenas.

Depois dessa, havia outras.

Cenas mais comuns, com ele sentado quase sempre atrás ou ao lado dela, na primeira, segunda, terceira, quarta e quinta séries primárias. Colava de Beatriz, em Aritmética. Ela colava dele, em Linguagem. Tiravam notas boas. Mas em Comportamento, todo mês ganhavam o mínimo, porque não paravam de conversar. Todas as manhãs, menos sábado e domingo.

Sábado não tinha Beatriz. Mas domingo, vez enquando, na missa das dez, novamente ela aparecia, ao lado da mãe. Dona Lucy não usava saias de veludo nem tinha cabelos dourados: era viúva, vestia preto, cabelos presos num coque, rosário na mão. Ao lado dela, o brilho de Beatriz desaparecia, ofuscado por uma dor que ela ou ele só seriam capazes de compreender mais tarde, se houvesse tempo. E não havia.

A SEPARAÇÃO

De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo. E quando começaram o ginásio houve: A Separação. Ele foi para o colégio Estadual, ela para o colégio das Freiras. Depois das férias grandes, pelas manhãs, num fim de verão, não havia mais Beatriz.

Aos domingos, sim, tinha Beatriz na matinê das quatro. Sem dona Lucy. Havia agora Betinha, Aureluce, Tanara e outras amigas barulhentas em volta, uma fila inteira delas no Cine Cruzeiro do Sul. Com blusinhas de banlon e risadinhas, pipocas e barulho de papel de bala amassado justo na hora em que Johnny Weissmuller ia cair nas mãos dos pigmeus canibais. Areias movediças, caçadores de cabeça, dardos fatais. Odiava todas as gurias: gasguitas gasguitas. Menos ela. Quando retardava ou apressava o passo para cruzá-la na saída, ruborizava um pouco, dizia óh! cumprimentando - e apressava o passo de novo, para afastar-se logo e levá-la por dentro, perdoando tudo.

Ela crescia. Crescia não como as outras, para os lados, para a frente e para trás. Beatriz crescia principalmente para cima. Pescoço cada vez mais longo, rabo-de-cavalo preto liso escorrido batendo nas costas, abaixo dos ombros. Ele, não. Ele não crescia para lado nenhum. Só para dentro, parecia. Tinha horror de uma coisa densa, meio suja, entupindo ele por dentro.

Descoordenava os movimentos, descontrolava a voz. Umas espinhas, uns pêlos apareciam em lugares imprevistos. Sentia-se pesado, lerdo, desconfortável como se não coubesse dentro do próprio corpo, suspenso entre ter perdido um jeito antigo de comandá-lo e ainda não ter encontrado o jeito novo. Que devia haver um.

Nessa época, começaram os boatos. A filha da Lucy, diziam, mas mudavam logo de assunto quando ele se aproximava. Que horror, ainda conseguia ouvir, que tragédia. Primeiro o marido, agora a filha. Coitadinha, nem quinze anos. Aprendeu a maneira de ouvir sem ser visto. Na sombra, atrás da porta.

Até surpreender, um dia, a palavra nova: leucemia. No dicionário, encontrou. Mas não conseguiu entender direito. Glóbulos, era bonito, redondo. Parecia pétala, sânscrito, dádiva: gló-bu-los. Brancos, excesso. Mata? perguntou no colégio. Disseram que sim. Em pouco tempo.

A URGÊNCIA

Então baixou a pressa. Não tinha mais um dia a perder, pois embora fosse muito cedo, começou a suspeitar que era também desesperadamente tarde demais. Procurou Betinha, bilhete pronto, escrito com Parker em folha de arquivo. Quero falar contigo amanhã sem falta, na praça, depois da aula.

- Tu sabes? - perguntou Betinha, olho no olho.

Ele disse que sim.

De tardezinha, veio a resposta: Beatriz concordava. Amanhã na praça, sem falta.

- Mas tu sabes mesmo? - Betinha perguntou novamente.

Outra vez, disse que sim. Perguntou se era verdade. Betinha sacudiu a cabeça, que era. Antes de ir embora, ainda falou:

- Olha bem para o pescoço dela. Tem uns caroços aqui, assim, inchados. Aquilo é a doença.

Ele olhou bem, quase meio-dia da manhã seguinte, sentados num banco do centro da praça. Enquanto pedia, trêmulo de amor:

- Beatriz, quero namorar contigo.

Ela apertou contra o peito um livro de História do Brasil:

- Tu é muito criança - disse.

Quase não conseguia olhar para ela. Olhava o chão de pastilhas coloridas no centro da praça. Formavam círculos, quadrados, estrelas grandes e pequenas. Menores ainda, estreletes.

- Mas se eu sou criança - foi dizendo devagar, convincente -, se eu sou criança tu também é, porque só tens doze anos.

- Treze - ela corrigiu. E ergueu o rosto para o sol no meio do céu.

Os gânglios inchados quase desapareciam assim. Gân-gli-os, repetiu mentalmente, essa palavra que quase não conhecia.

Espantado, percebeu que Beatriz usava batom. Batom clarinho, mal se notava. Parecia tão divertida e distante que aquela coisa densa, meio suja, dentro dele começou a se contorcer feito quisesse sair para fora. Cobra armando o bote, vômito armado na garganta. Ainda tentava controlá-la, quando insistiu:

- Eu gosto de ti, Beatriz. Eu gosto muito de ti. Eu gosto tanto de ti.

- Pois eu não - ela abaixou os olhos, procurando os dele. Quando encontrou, falou quase sorrindo, como quem dá uma coisa doce, não como quem enfia uma faca afiada: - Gosto só como amigo.

- Como amigo, não me interessa - gemeu.

Devia ser março, porque o sol era tão quente que fazia gotas de suor escorrerem entre as espinhas da cara dele até o lábio superior, onde aquele pêlos escuros começavam a se adensar. Sua cara de macho em preparação devia estar nojenta como a de um bicho. Mais tarde, bem mais tarde, se lhe perguntassem, mas ninguém saberia, poderia explicar que não tinha tido culpa. Foi aquela coisa suja de dentro que subiu descontrolada garganta acima, para atravessar a língua e os dentes até arredondar-se de repente na pergunta cruel que jogou no ar morno de meio-dia (e Sol na X, era o destino):

- Beatriz, tu sabe que vai morrer?

Ela levantou. Nem pálida, nem lágrimas nos olhos. Remota, fatídica. Ele levantou também. Só então percebeu que, além do batom, ela usava sapatos de saltinho que a faziam quase dois palmos mais alta que ele. Por trás dela, podia ver a torre da igreja. Talvez uma ou duas palmeiras. A caixa d’água ao longe, muito alta. O sino começou a bater. Beatriz virou as costas e saiu caminhando, pescoço erguido, o livro de História apertado contra os seios tão empinados que, num último golpe, percebeu: além do batom e dos saltinhos, Beatriz também usava sutiã. Beatriz era uma mulher. E ia morrer

A PARTIDA

Volta, quis dizer, parado no meio da praça.
Mas agora, tantos anos depois, não saberia se teve mesmo vontade de chamar ali, ao meio-dia de uma tarde de Peixes, ou se repetiria depois baixinho, à noite, sozinho na cama, no mesmo quarto com o irmão mais velho, nessa noite ou em todas as outras depois dessa, à medida que o verão fosse indo embora e as noites todas se tornassem mais e mais frias, junho julho, agosto adentro, enrolado em cobertores, vida afora repetindo volta, Beatriz, volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares boa e então nós podemos ir embora para a África ou Oceania ou Eurásia ou qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente boa do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca.

Não disse nada. Pisando lenta, olhando o sol, Beatriz foi embora para sempre dos doze anos de vida dele.

AH, DINDI...

O tempo passou, depois disso, mais um pouco. Um, dois anos em que, além de para dentro, ele começou a crescer igual aos outros: em todas as direções. Aqueles pêlos finos engrossaram sobre o lábio superior, outros surgiram, escureceram curvas, reentrâncias. As espinhas desapareceram, a voz definiu-se. Aquela coisa densa de dentro transformou-se numa espécie de leite espesso que descobriu o jeito de puxar para fora, com movimentos da mão e estremecimentos do corpo. Na cama ao lado, Toninho repetia:

- Vai criar cabelo na palma da mão. Vai ficar tuberculoso desse jeito. Se quiser, um dia me fala, te levo na zona. Ou vai sozinho, chega na Morocha e diz que é meu irmão, ela já sabe.

Foram esses os anos em que Beatriz foi embora. Para a capital, para se tratar, diziam.

Isso depois de uma fase em que ela trocou aquele batom rosa clarinho por outro vermelho, muito forte, aqueles saltos baixos por outros altíssimos, e decotes fundos, costas de fora, saias curtas, pernas cruzadas no clube, risadas estridentes na rua, cigarros e rosas de ruge nas faces cada vez mais brancas. De mão em mão, Beatriz passou. Pelas mãos de Cacá, que na aula de Educação Física abaixava o calção para mostrar o pau, o maior do colégio, quem quisesse ver. Ou pegar, alguns pegavam. Pelas mãos de Mauro, que tinha cabelo no peito e encestava bola no basquete como ninguém. E Luizão e Pancho e Caramujo e Bira e tantos outros que nem lembrava direito o nome, a cara, divulgando pelas esquinas, pela sinuca, pela praça ou matinê: ela faz de tudo, só chegar e meter a mão, dá pra qualquer um - uma percanha.

Com ele, quase nada aconteceu, além de uma tentativa desastrada de namorar Betinha, depois que Beatriz se foi.

Mas só perguntava por ela, até que um dia Betinha encheu, foi namorar Luizão, que tinha uma lambreta. Quase nada além daquele corpo crescendo em direções imprevistas, de um B gótico desenhado em segredo e carinho nas folhas finais dos cadernos, principalmente os de Geografia, quando tentava decorar as capitais - Suíça, capital Berna; Polônia, capital Varsóvia; Honduras, capital Te-gu-ci-gal-pa - e a cada nome estranho repetia e repetia, morto de saudade: para lá, então, para lá, Beatriz, quem sabe - vamos?

Aprendeu a dirigir o Simca Chambord branco forrado de vermelho do pai. Mas Passo da Guanxuma acabava logo: só restavam quatro estradas de terra vermelha poeirenta batida, perdidas até o horizonte. Precisou professor particular de Matemática. Ficou para segunda época em Latim, não conseguia passar da primeira declinação, terra, terrae, terram. Escreveu sonetos de pé quebrado, sem parar ouviu Silvinha Telles num compacto cantando ah-Dindi-se-soubesseso- bemque-eu-te-quero-o-mundo-seria-Dindi-lindo-Dindi...

Até aquele dia.

MARTE

Era sempre verão quando alguma coisa acontecia. Talvez porque no verão as pessoas tiravam cadeiras para fora de casa e, pelas calçadas, olhando estrelas, falavam de tudo que não costumavam falar durante o dia. Ele tinha aprendido o jeito de se confundir com as sombras, sem que o notassem. Tinha-se tornado uma sombra à espreita do que nunca era dito claramente, à beira do momento em que não haveria mais nenhum segredo a descobrir e a vida, então, se tornasse crua e visível, por tê-la tocado ele mesmo, não por ouvir dizer.

Frase após frase, ficou ouvindo:

- E a filha da Lucy, tu já soube?

- Quem, a Beatriz?

- E a Lucy tinha outra filha, criatura?

- Perguntei por perguntar. Que aconteceu?

- Pois diz que morreu, em Porto Alegre.

- Mas não me conta, criatura. Quando?

- Ontem, tresantontem. Não sei direito. Vão enterrar lá mesmo.

- Que barbaridade Tão novinha.

- Pois é. Mas uma perdida. Não tinha nem dezesseis anos.

- Um guria bonitinha. Meio espevitada, mas jeitosinha.

- Diz que morreu grávida.

- Pelo amor de Deus, não me conta.

- Que sabia que ia morrer. Aí deu um desgosto, emputeceu de repente.

- Mas quem era o pai?

- Deus é que sabe. Só aqui no Paço, retoçou com todos. O Cacá da Zulma, o Luizão da Lia, o Eira do Otaviano. Fora os de lá, que ninguém sabe.

- Que coisa de louco.

- Diz que a cabeça rachou toda antes de morrer.

- Como, rachou?

- Pois rachou, ué. Que nem porongo no sol. A tal da doença.

- Mas a pobre da Lucy. Primeiro o marido, depois a filha.

- Cada vivente com a sua sina.

- A pobre da Beatriz.

- Que Deus a tenha.

- Escuta, teu filho não tinha um rabicho por ela?

- Tinha? (Tanto tempo hoje, a garrafa de vinho quase vazia e a voz travada de Marjanne Faithfull cantando As Tears Goes By, tantas dores novas, e tão inesperadas, tivesse visto de lá, naquele tempo, com aqueles olhos que nunca mais teria.) Tinha tido mesmo - tão grosseiro, como se diz? - um rabicho por Beatriz? Não sabia responder direito.

Deve ter olhado para cima e visto a estrela vermelha (seria Marte?) que naquele verão costumava brilhar justamente sobre a casa da Morocha. Teve um impulso, coice no peito, suor na testa. Mas esperou que o assunto mudasse, virando página após página de O Cruzeiro, jogado no sofá-cama da sala. David Nasser, disco voador, Márcia e Maristela, candangos, Odete Lara, coisas assim. Só depois de ter remanchado horas pela casa - outra vez então aquela coisa grossa, aquela coisa porca, aquela coisa furiosa dando voltas dentro dele - resolveu emergir devagarinho das sombras para a luz do poste sobre as pessoas sentadas na calçada.

E visto assim, à luz do poste, dos cigarros, vaga-lumes e estrelas, camisa aberta ao peito, as duas mãos enfiadas fundo nos bolsos, parecia tão seguro e decidido que ninguém teria coragem de negar absolutamente nada quando pediu:

- Pai, me empresta o auto?

POEIRA

Deu a partida e enveredou pelos barrancos em direção à casa da Morocha. Alto do chão.

- El hermano de Tonico? - ela perguntou, oferecendo a cuja de mate novo, dente de ouro na frente. - Entonces, eres tu? Bién que él me tenha hablado, muy guapo.

Os anéis cintilaram quando ela abriu a porta para que ele penetrasse no interior enfumaçado. Já estavam lá, ou chegariam depois, não lembrava, o Caramujo, o Pancho, o Bira e talvez um ou outro daqueles bagaceiras todos que tinham tocado em Beatriz. Não falou com ninguém. Sentou sozinho numa mesa, pediu um maço de Hudson com ponta, uma cerveja. Antes que pedisse a segunda, uma loira meio velha, olhos verdes e falha num dente, pediu licença para sentar com ele. Usava saia justa de veludo de cor viva, de que nunca mais conseguiu lembrar a cor exata, embora tivesse certeza de que não era verde-musgo nem azul-marinho.

Na manhã seguinte, quando Toninho aos berros finalmente conseguiu acordá-lo, lembrava apenas de ter pedido para ouvir O Destino Desfolhou, depois de uma vomitada espetacular bem no meio da sala. Mais que tudo, das pernas escancaradas de uma loira meio velha numa cama de lençóis com cheiro estranho. O resto, névoa opaca, gosto de palha na boca.

Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso e foi-se dispersando aos poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito sobre Beatriz ou ele mesmo ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de: Aquele Tempo. Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece. Continuam a dizer coisas que ele não entende.



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