Contos, crônicas e cartas

Blog ativado em: 16/maio/2010

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

* A Luciano Alabarse

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Paris, 28 de abril de 1994.


Luciano, querido,
escolhi esse papel especial para você — tem de todas as cores, é reciclado e baratíssimo. Ah, o Primeiro Mundo — que está mais Terceiro do que nunca, caindo pelas tabelas de desemprego, crise daqui, crise dali. Espero que minha carta chegue. Pedi teu endereço à mãe, mas ela — ai, a idade — não mandou CEP e tudo e tal.

Te escrevo com o pé na estrada. Parto Domingo para Lisboa, que não conheço — bem nigrinha, vou de ônibus, 25 horas, c‟est pas grave, j‟espére... e volto a Paris dia 15 de maio só para pegar malas e correspondência, dar uma geral nas tropas. Aí parto para a Noruega, visitar Augusto, que vive lá há 20 anos, casado — de papel passado — com um norueguês, Henning (também conhecido como Gilda). Ambos me convidam para a colheita de narcisos da primavera. A frescura é tanta que, claro, não resisto.


Enfim: estarei chegando a SP dia 8 de junho. Fone/Fax — anote lá — iguais: (011) 283.13.33. Pnsei em ir logo a Porto, mas acho que só vai dar no fim de agosto, porque tenho muita, muita costura pra entregar em Sampa.

Parto de Paris um tanto fatigado, trabalhei muito na divulgação dos livros, mas contente. Deu certo! Fiz dois programas de TV — um só de escritores, outro com um grupo de “artistas” — este segundo, imagina, era com Isabella Rosselini lançando seu filme État second, ela e Jeff Bridges. A Rosselini é simpática, simples e um tanto quanto larga nos quartos... Saíram críticas ótimas em jornais e revistas, a melhor no L‟Express, a Veja francesa com ética. Dulce Veiga está indicado para o prêmio de melhor romance estrangeiro — prêmio Laura Battaglion, 100 mil francos, metade para o autor, metade para o tradutor. Acho que não levo — sai em
junho — porque tem gente tipo Philip Roth e Paul Auster no páreo, mas anyway já valeu a indicação — são só 10.

Enfim, trabalhei — trabalhei, fui a duas ou três boates gays muito chatas e iguais, fui muito a cinema (fique atento a Short cuts, de Robert Altman, e Gilbert Grape, de Lasse Halstrom) e sobretudo estou numa relação maravilhosa comigo mesmo. Meu francês soltou-se, falo maravilhosamente e faço tudo com o maior desembaraço e sozinho. Alguma coisa em mim parece que laceou, eu era tão cheio de medos. Aprendi também a não contar muito com os outros: na medida do possível, faço tudo só. Dá mais certo.

Mas no meio de tudo isso, sinto o tempo todo uma enorme vontade de ficar só e escrever, escrever, escrever. Pareço a Orlando da Virginia Woolf (que Isabelle Hupert faz no teatro aqui: não havia entradas!) carregando seu manuscrito inacabado séculos afora... Até hoje não sei o que você achou do meu O homem e a mancha — que o Carlinhos Moreno tava de saia-justa para montar em SP. Imagina que ele me disse que achava bom demais para ele?

Meu anjo da guarda sempre forte me jogou no caminho de um pianista brasileiro — Braz Velloso — que me emprestou seu ap. enquanto foi ao Rio ver o namorado. Ouvi muita, muita Callas. Embaixo mora outro pianista brasileiro, Rafael Hime, primo de Francis, que também tem sido um anjo. Muitos anjos, sim, mas para manter o equilíbrio também muitos, muitos demônios. Na verdade, até poucos: acho que — graças a Deus — têm medo de moi.

Falo sempre em nossa deusa Calcanhoto (outro dia falei nela numa crônica que enviei para o Estadão) e ouço-reouço sempre, quase sempre na estrada, apoiado em alguma vidraça de ônibus, trem ou avião, e choro sempre com “eu ando pelo mundo prestando atenção em cores”. Pedi ajuda a algumas pessoas no Brasil para recuperar endereços, mas não recebi respostas. Quem me escreveu mesmo foi Lygia Fagundes Telles, e minha mãe — que mãe é mãe.

Mas não me queixo. O amor que sinto pelos outros quase sempre é suficiente, não precisa nem ter volta.

Será a sabedoria? Ou apenas a meia-idade? A propósito desta, ando com altas dores no lombo. Totalmente descadeirado. Divido receitas com Falleiro, que está aqui para escrever sua tese de mestrado e também começa a sentir os, digamos, rigores do tempo. Ah, Cronos!

Se alguém perguntar por mim, diga que estou noivo de Isabelle Adjani — mas não fiquei metido e mando beijos. Espero que sua vida, amores, projetos, trabalho, saúde e tudo o mais estejam luminosos, cheios de energia. Felicidade, je t‟embrasse trés fort.



.......................................................................................................Caio F.



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3 comentários:

Lu Tostes disse...

Colheita de narcisos na primavera, embebedar-se da própria companhia, anjos e demônios, Calcanhoto, amor pelo amar... Ah... tudo é mais poético vindo de Caio... assim como sofrer e ser feliz em Paris... :)

Evandro Oliveira disse...

Quero para te convidar para visitar meu blog e concorrer ao sorteio de um livro, que com certeza irá gostar.

Voltarei aqui mais vezes, gosto demais desse espaço!

http://sabordaletra.blogspot.com/

Morena Flor disse...

Geente, que coisa mais linda.

PERFEIÇÃO! Não me canso de comentar: Caio, sempre perfeito e lindo, tudo isso!